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Henry Milleo / Gazeta do Povo / Paulo com os filhos Paula e Vinícius: Paulo com os filhos Paula e Vinícius: "Assim que eu me descobri pai, senti o instinto paterno. Você se torna capaz de fazer tudo por essa criança que vai nascer”
ESPECIAL

Esse amor é feito de quê?

Novo papel dos pais deixa mais evidente um afeto instintivo, companheiro e tão profundo quanto o das mães

12/08/2012 | 00:04 | Franco Caldas Fuchs, especial para a Gazeta do Povo

A barba que espeta não é muito atrativa. Assim como pode ser frustrante para o bebê não encontrar o alimento no peito desse ser que também o acalenta. Mas como todo bom pai sabe, logo surgem outras formas de estreitar os laços e amar os filhos de uma maneira tão poderosa quanto a das mães.

Se alguém duvida da existência de um instinto paterno, o professor universitário Paulo Osmar Dias Barbosa, 57 anos, garante: “Existe sim, embora alguns homens talvez não o percebam de maneira clara. Assim que eu me descobri pai, eu senti isso muito forte. Você se torna capaz de fazer tudo por essa criança que vai nascer”, diz o pai de Vinícius, 27, e Paula, 23.

Marcelo Andrade / Gazeta do Povo

Marcelo Andrade / Gazeta do Povo / Renato doou uma parte de seu fígado para o filho Gabriel + ampliar imagem

Renato doou uma parte de seu fígado para o filho Gabriel

A psicóloga Liliam Gusso, do Centro de Apoio às Mu­­lheres e ao Casal Grávido (Ce­­muc) afirma que esse instinto é comprovado cientificamente. “No homem que vira pai e se aproxima da criança, sabe-se que há uma liberação de ocitocina, o hormônio do amor. Com isso ele transmite afeto ao filho, que se torna um indivíduo mais seguro, inteligente e concentrado”, explica a psicóloga.

Formas de amar

Junto com um instinto peculiar, há uma forma de expressar o amor que é muito própria do sexo masculino. O professor Barbosa reconhece que as mães têm uma facilidade maior de externar o afeto. “Pela nossa própria criação, numa sociedade machista, nós pais temos um pouco de dificuldade de nos abrirmos em palavras. Eu mesmo, no início, transmitia meu amor mais com gestos e ações, mas depois vi que era importante dialogar mais com os filhos, sobre tudo.” Quanto a isso, sua filha Paula não tem do que reclamar. “Ele sempre conversou muito com a gente e fez questão de conhecer os nossos amigos. Essa atenção é um dos maiores presentes que um pai pode dar”, diz.

Capaz de tudo

A história do operador de máquinas Renato Luiz Eze­­quiel, 26, demonstra o quanto essa ligação pode ser forte. Logo após o nascimento do filho Gabriel, em 2008, ele descobriu que o menino tinha uma doença conhecida como atresia de vias biliares, que comprometia seriamente o fígado da criança.

Quando o médico o informou que a melhor forma de solucionar o problema seria por meio de um transplante de fígado, Ezequiel não hesitou em doar parte do seu órgão para o filho, mesmo tendo 20% de chances de morrer. “Só tive medo por ele. Nunca pensei em desistir da operação”, conta. Gabriel logo recobrou a saúde, mas, algum tempo depois, ele e o pai enfrentaram novos desafios. “Eu havia me separado da mãe biológica dele pouco tempo depois da operação.”

Hoje Ezequiel desempenha o papel de pai e mãe, portanto é ele quem dá banho, prepara comida e cuida de todas as necessidades de Gabriel. “Isso nos aproximou ainda mais. Nossa relação vai além dessa coisa de pai e filho: Gabriel é meu confidente, minha inspiração, minha vida.”

Como observa Ezequiel, o fato de terem apenas 22 anos de diferença de idade é algo que facilita ainda mais a comunicação entre os dois. “A gente joga bola e videogame junto e conversa bastante. É diferente da relação que eu tinha com o meu pai, que era 40 anos mais velho que eu. Pela própria criação dele, não era muito de demonstrar amor, apesar de ter sido um bom pai.”

Abertura para o pai

Para a psicanalista Juratriz Salete Ribas Zanatta, da Associação Psicanalítica de Curitiba, se por um lado existem muitos pais que não se importam com os filhos, por outro há pais que não exercem a sua função pois não recebem abertura das mães para isso. “O pai só consegue assumir sua função se a mãe permitir. Se ela não permite, por mais que ele queria, não entra na relação.”

A empresária Marta Pele­­grini, 44, concorda com a psicanalista. “Conheço casos de mães que ocupam todo o espaço e deixam o pai sem função, mas isso não acontece em nossa família. Desde que nossos filhos nasceram, o Carlos sempre foi muito presente.”

O empresário Carlos Pele­­grini, 46, procura estar ao lado dos filhos Lucas, 15, e Bruna, 11, a maior parte do tempo possível, e até entrou para o grupo de escoteiros para acompanhá-los. “Procuro saber sobre tudo o que fazem e sou amigo deles na hora certa. Mas é preciso mostrar o certo e o errado e também dizer não. Há pais que deixam o filho fazer o que quiser por comodidade, afinal cuidar dá trabalho.”

O exemplo de São José

Ao refletir sobre a diferença entre o amor de pai e de mãe, o jornalista e escritor Paulo Briguet lembra de São José, o pai silencioso, trabalhador e protetor, que “adotou” Jesus. “No fundo, acho que a diferença entre o amor de pai e o amor de mãe é esta: todo pai, para ser amado, precisa de certa forma adotar o seu filho”, diz Briguet, que é pai de Pedro, 2 anos.

Para o escritor, que mantém o blog Com o Perdão da Palavra, no Jornal de Lon­­drina, a figura do pai Paulo Lourenço (1941-2008), com quem dividiu a autoria de dois livros de crônicas – Diário de Moby Dick e Mea Culpa e outras Crônicas –, foi determinante em sua vida.

Entre tantos gestos de amor, fica gravada em sua memória a imagem de Lourenço chegando cansado do trabalho, mas sempre disposto a brincar e a contar histórias. “Depois ele se sentava numa poltrona com um livro. Eu não sabia que aquele livro era a imagem do nosso destino comum. Às dez da noite, me colocava para dormir e dizia: ‘O anjo passa às dez horas e anota num caderninho o nome das crianças que estão acordadas!’ Hoje sei que ele era o anjo das dez. Ele me salvou do desamparo em que todos estamos mergulhados.”

Mudança

Pais com o papel redefinido

Com as mudanças na sociedade e sobretudo no comportamento das mulheres, que passam mais tempo fora de casa, no trabalho e em outras atividades, estudiosos das ciências humanas afirmam: o pai do século 21 enfrenta uma crise.

“Antes ele cuidava mais de aspectos externos, como o sustento da família, e agora é obrigado a cuidar da alimentação do filho, da roupa, da saúde e de outras atribuições que eram relegadas às mulheres”, observa Lindomar Wessler Boneti, professor de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Mas, se a realidade muda rapidamente, certos aspectos culturais demoram a ser absorvidos, e assim muitos pais ainda não sabem como lidar com essa nova situação. “A sociedade espera hoje que um pai expresse sua sensibilidade e o seu amor, mas há muitos homens que foram educados para serem duros, como comandantes de guerra, e ainda não estão culturalmente preparados para assumir um novo papel”, aponta o sociólogo.

Autoridade sem autoritarismo

O papel do pai também fica mais complexo no momento em que aumenta tanto o número de mães e pais solteiros quanto de casais do mesmo sexo. Mas, mesmo diante disso, um aspecto fundamental dessa função se mantém. A psicanalista Juratriz Salete Ribas Zanatta, da Associação Psicanalítica de Curitiba, explica que o pai permanece como uma figura determinante na constituição da criança. “Quando um bebê nasce, ele acha que a mãe biológica, ou a pessoa que cumpre esse papel, é só dele, e então é preciso que um pai faça um corte nessa relação e imponha o primeiro de muitos limites: separar a criança da mãe e mostrar que aquela mãe é a companheira dele.” Uma criança cresce emocionalmente de forma saudável graças a esse tipo de aprendizado, segundo a psicanalista.

O desafio de hoje, segundo os especialistas, é o pai ter autoridade, mas sem o autoritarismo do passado. “Hoje existe essa ideia de que pai e filho precisam ser amigos, mas se essa relação se nivelar demais, algo que Aristóteles condenava, o pai pode perder a autoridade e isso gera confusão para o filho”, diz o filósofo e professor da PUCPR Jelson Oliveira. Tal autoridade hoje já não é mais natural e precisa ser conquistada. “Não basta mais o pai apenas sair mandando. Ele deve conquistar uma liderança, dar exemplo, e criar espaços de encontro com a família”, opina o filósofo.

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