
Os Sabores do Palácio entra para a seleta lista de filmes não recomendáveis para se assistir com a barriga vazia, caso contrário, é tortura na certa. Isso porque o diretor Christian Vincent não economiza nos closes de vários pratos saborosos, daqueles servidos somente no Natal e de fazer qualquer espectador salivar no ato. O roteiro escrito a seis mãos gira em torno da famosa cozinheira Hortense Laborie (Frot), quando recebe um convite irrecusável e repentino de ser a chef responsável pelas refeições do Presidente da República, no Palácio de Eliseu. Ela, então, se muda para Paris e convive com a inveja dos cozinheiros da cozinha central do Palácio. Ao mesmo tempo, o espectador acompanha, alguns anos depois, Madame Laborie como a chef de uma base científica na Antártida, onde ela recorda seus tempos áureos de reconhecimento na culinária francesa.
Além da sensação agradável cultivada pelo projeto, a história deposita toda a confiança na personalidade forte de sua protagonista, defendida pela ótima Catherine Frot. E assim, somos guiados pelas atitudes equilibradas e decisões previamente estudadas dessa mulher, que não permite que sua função seja rebaixada pelos outros. Não deixa de ser interessante a troca de farpas de Madame Laborie com a cozinha central, lotada de homens, por estes terem sido preteridos por uma mulher até então desconhecia para comandar a cozinha privada do Palácio. Ainda que apresentado de forma pouco incisiva, o machismo é um tema recorrente no desenrolar da trama, fruto da determinação da personagem central e a intimidade que ela cria com o Presidente, por ser uma mulher interessante e afável.
Em alguns sentidos, o filme lembra a animação Ratatouille (2007) pelo plot baseado na preparação de um prato a uma figura de renome, passando do fictício crítico culinário Anton Ego para o também fictício Presidente da França, embora esta história seja verídica e baseada nas memórias da única mulher que ocupou a função de cozinheira do Palácio, Danièle Mazet-Delpeuch. Mesmo que comprometa diversas passagens pelo o timing cômico novelesco, Os Sabores do Palácio é uma comédia gastronômica leve e de fácil digestão. (***)
Previsão de estreia nos cinemas: 7 de junho.
OS SABORES DO PALÁCIO (Les Saveurs du Palais) França, 2012
Direção: Christian Vincent
Roteiro: Etienne Comar e Christian Vincent
Elenco: Catherine Frot, Arthur Dupont e Jean d’Ormesson

O auteur francês Jacques Audiard surpreende a cada novo projeto pela destreza de suas narrativas e pela habilidade de converter suas histórias em um espontâneo fato real, sem que a trama em si se deleite em artifícios manjados e “se comporte” como um filme; aí entra a engenhosidade do autor em moldar os rumos da trama para que esta seja cinematográfica por natureza. É um tato espetacular e diferencial que posiciona Audiard, ainda que possua apenas seis produções em seu currículo, como um dos mais interessantes cineastas contemporâneos. Emocional e muito realista a ponto de gerar incômodos, Ferrugem e Osso é um drama bem urdido sobre duas pessoas castigadas pela vida e que encontram apoio um no outro. O filme esbarra no melodrama, mas felizmente não cede totalmente às tentações, mantendo-se um retrato lírico e doloroso do acaso, da compaixão e do nosso corpo.
Audiard narra sua história sem alardes, preferindo se ater à discrição para mostrar o recorrente choque de corpos dos personagens centrais, interpretados com excelência por Matthias Schoenaerts e Marion Cotillard. Seus encontros, muitas vezes, podem não significar nada e proporcionar um grande vazio, mas (novidade!) assim é a vida. O diretor abre mão de clímax, conflitos e quaisquer recursos dramáticos para traçar um perfil cru e natural do envolvimento do casal. E a afeição que o espectador desperta por estes personagens, palpáveis em sua imperfeição, é o principal combustível que impulsiona o filme a ser comovente em sua simplicidade.
Beneficiado pelo brilhante uso de efeitos visuais e com trilha sonora assinada pelo onipresente Alexandre Desplat, que vai de acordes introspectivos a Katy Perry, Ferrugem e Osso saiu de mãos abanando de algumas premiações importantes na última temporada (Festival de Cannes, Globo de Ouro, BAFTA...). Caso Varilux concedesse algum tipo de prêmio aos filmes de sua programação, 2013 encontraria neste título o seu grande vencedor. (****)
Sem previsão de estreia nos cinemas brasileiros.
FERRUGEM E OSSO (De Rouille et D'os) França/Bélgica, 2012
Direção: Jacques Audiard
Roteiro: Jacques Audiard e Thomas Bidegain
Elenco: Matthias Schoenaerts, Marion Cotillard e Armand Verdure

Uma mulher sufocada pelo remorso decide ir até a delegacia na calada da noite e se entregar para a tenente de plantão, alegando que a polícia se equivocou há 10 anos, quando concluiu que seu marido cometeu suicídio, pois ela confessa ter sido a autora do crime. Pelo clima envolto em mistérios e também por conta da expressão abatida da atriz Sophie Marceau, a “criminosa” em questão, o espectador acompanha essa introdução, já se acomoda na poltrona do cinema e pensa “aí vem um drama pesado. E dos bons”. Na verdade, Prenda-me possui uma ideia interessante, pois ao chegar a tal delegacia, a policial se recusa a prender a esposa, pois ela foi vítima durante toda a sua vida e “matou” o marido em legítima defesa, já que o homem era um canalha violento. Com influência teatral, o roteiro se aprofunda nas experiências dessas mulheres, que dividem muito mais similaridades do que se pensa.
O problema é que o filme expõe tudo isso da pior (ênfase no “pior”) forma possível. Para o que se inicia como um drama contundente, com direito a espancamento em um elevador e uma cena fortíssima do agressor covarde fincando um garfo na mão da protagonista, o filme vai gradativamente cedendo espaço para uma atmosfera nonsense que chega de supetão e domina o script. Do drama macarrônico, Prenda-me se torna uma comédia absurda, ridícula e com humor fajuto, digno das novelas da 7 escritas pelo Walcyr Carrasco. Isso sem mencionar momentos de absoluta vergonha alheia, como quando a tenente interpretada pela over Miou-Miou começa a falar de seu passado, poluindo o filme com uma avalanche de flashbacks imbecis e sem necessidade. Não sei dizer se é ingenuidade ou burrice crônica das personagens, mas Marceau e Miou-Miou tentam adicionar alguma dignidade a este projeto, mas não conseguem fugir do embaraço.
Prejudicado pela direção capenga de Jean-Paul Lilienfeld, que utiliza determinados recursos técnicos apenas para mostrar que é capaz, já que suas escolhas não somam nada à história, Prenda-me é uma boa ideia que foi parar em mãos erradas. Minha pia de louça suja é mais relevante. (*)
Sem previsão de estreia nos cinemas brasileiros (AMÉM!)
PRENDA-ME (Arrêtez-moi) França, 2012
Direção e Roteiro: Jean-Paul Lilienfeld
Elenco: Sophie Marceau, Miou-Miou e Marc Barbé

Após o sucesso conquistado em 2012 (aqui e aqui), Maringá sedia novamente o Festival Varilux de Cinema Francês. Nesta edição, o festival chega a 40 cidades e 70 salas de cinema, um aumento de mais de 50% em relação ao ano passado.
Entre os dias 10 e 16 de maio, serão exibidas em Maringá 14 produções francesas recentes e inéditas comercialmente nos cinemas brasileiros. Para conferir a programação da cidade, com as datas e horários das sessões, clique aqui. (http://variluxcinefrances.com/maringa/)
Durante esta semana, o leitor confere no Pós-Première uma cobertura completa com resenhas dos filmes da programação.
Vamos aos três de hoje:

Ambientado no primeiro ano da Revolução Francesa, em 1789, a história de Adeus, Minha Rainha transcorre integralmente nos arredores e no interior do Palácio de Versalhes, onde a jovem serva Sidonie (Seydoux, ótima) assume o cargo de assistente de leitura da frívola rainha Maria Antonieta (Kruger), que prefere as revistas de moda à literatura clássica. Em uma manhã, o desespero toma conta da Corte quando o povo francês invade a fortaleza Bastilha, em Paris, e envia uma lista ao Palácio contendo 286 pessoas que devem ser guilhotinadas; entre elas, naturalmente, estão os nomes do rei Luís XVI e de sua esposa.
Apesar do consequente tom político, o filme apenas o utiliza como pano de fundo para o desenvolvimento da trama e descarta a possibilidade de mostrar confrontos e rebeliões, revelando-se muito mais interessado no retrato da euforia geral de Versalhes, além de repercutir os sentimentos reprimidos das protagonistas, que envolvem platonismo, adultério, castidade e romance homossexual. O caráter prolixo da narrativa é um dos graves problemas de Adeus, Minha Rainha, pois apresenta uma longa cadeia de personagens secundários mal engendrados, que nada acrescentam e desaparecem no decorrer do filme. Sem falar que nenhuma das investidas do roteiro é consistente o bastante a ponto de comprovar o que é apenas sugerido pelos criados da monarquia; afinal, compramos a ideia da história, mas pouco é evidenciado e compartilhado com o espectador.
Partindo do princípio que o enredo promete esboçar a devoção da criada pela rainha e a relação desta com a duquesa Gabrielle de Polignac (Ledoyen), as expectativas são frustradas pelo script, já que o conflito interno dessas mulheres é puramente teórico e abstrato, jamais palpável e gratificante. Atenta aos detalhes, a direção de Benoît Jacquot prevalece propositalmente técnicas “deselegantes” (câmera trêmula, closes invasivos) como carta de rejeição de pompa e suntuosidade, o que vem bem a calhar com a frieza da produção e a fotografia ocasionalmente poluída assinada por Romain Winding.
Para um filme que acende a ideia de mostrar os bastidores de Versalhes, incluindo a admiração de uma camponesa e a intimidade de Maria Antonieta, o essencial era destrancar mais alguns cômodos. (**)
Sem previsão de estreia nos cinemas brasileiros.
ADEUS, MINHA RAINHA (Les Adieux à la Reine) França/Espanha, 2012
Direção: Benoît Jacquot
Roteiro: Benoît Jacquot e Gilles Taurand
Elenco: Léa Seydoux, Diane Kruger e Noémie Lvovsky

A comédia romântica A Datilógrafa é de uma bobagem infinita. Com duração mais extensa do que o tolerável, a história narra a incursão da jovem secretária Rose Pamphyle (François) no (obviamente fictício) Campeonato Regional de Velocidade em Datilografia, um torneio mundial que reúne as mulheres mais velozes na arte de datilografar, capazes de quebrar o recorde de 515 caracteres por minuto. Para tentar a vitória, o chefe da garota, o galanteador e enigmático Louis (Duris), elabora um treinamento intenso de preparação com o objetivo de proporcionar maior resistência, coordenação, ritmo e o alongamento dos dedos à Rose. Mesmo sendo tolo em sua concepção básica e previsível até o minuto final, trata-se é um passatempo estiloso e divertido, que compensa por desabrochar uma história de amor em um clima deveras inusitado.
Tecnicamente irrepreensível, com empenhada reconstituição de época – final da década de 1950 –, figurino e uma ótima fotografia solar de Guillaume Schiffman – o que contrasta com seu trabalho anterior em p&b no sensacional O Artista (2011) – A Datilógrafa é repleto de desencontros amorosos infantis e problemas de entroncamento, principalmente no segundo ato da trama. No entanto, as fragilidades de roteiro do projeto são absorvidas porque este é um filme que, felizmente, não se leva tão a sério e sabe tirar sarro de si mesmo, convertendo sua limitação autodeterminada em piada automática. Protagonizado pelo charme do casal Romain Duris e Déborah François – a semelhança física da atriz com Joan Fontaine é impressionante –, A Datilógrafa é um pastel de vento, porém nutritivo para os “inclinados” ao gênero e para quem está aberto a acompanhar uma história simpática, perfumada e despretensiosa. (***)
Previsão de estreia nos cinemas: 24 de maio.
A DATILÓGRAFA (Populaire) França, 2012
Diretor: Régis Roinsard
Roteiro: Régis Roinsard, Daniel Presley e Romain Compingt
Elenco: Romain Duris, Déborah François e Berenice Bejo

Não há dúvidas de que Jeanne Moreau é uma das atrizes mais importantes da História do cinema. Dona de uma carreira invejável, a veterana trabalhou com uma longa classe de cineastas consagrados e seu talento foi reconhecido além da França, sendo convidada a atravessar o Atlântico para atuar em filmes de Elia Kazan e Orson Welles. Na Europa, suas parcerias também colecionam nomes de peso: Louis Malle, François Truffaut, Jean-Luc Godard, Michelangelo Antonioni, Luis Buñuel e Martin Ritt. Uau! Sempre soberana em cena, Moreau está atualmente com 85 anos e ainda a todo vapor no cinema, embora seja consciente de que um bom papel para uma idosa nas telonas – como aconteceu recentemente com a sua conterrânea Emmanuelle Riva em Amor, pela qual recebeu uma indicação ao Oscar – esteja cada vez mais raro.
Entretanto, curiosamente, a sua personagem é a melhor coisa deste descartável Uma Dama em Paris. Moreau interpreta Frida, uma estoniana que mora na França há muitos anos e que trabalhou como prostituta no passado para se sustentar. Suicida assumida e extremamente amargurada, a idosa recebe a também estoniana Anne (Mägi) para ser sua assistente doméstica, mulher contratada pelo seu jovem ex-amante, Stéphane (Pineau). A princípio, o relacionamento entre as duas é difícil, mas o roteiro fraco assinado a seis mãos não demora em tornar as duas mulheres, infelizes e abandonadas por amigos e familiares, fiéis confidentes uma da outra.
Assim, Uma Dama em Paris se sustenta em explorar as diferenças e as muitas similaridades entre Frida e Anne. Com uma premissa tão interessante, mesmo que pouco original, é lamentável constatar que o filme seja tão medíocre. A direção de Ilmar Raag se mostra enferrujada, indelicada e peca pela excessiva exposição das protagonistas. Como exemplo, para mostrar que Anne é solitária, o diretor inclui uma cena que a faz andar três quadras, olhando para o horizonte; enquanto Frida precisa abrir e fechar o armário de remédios para mastigar ao espectador que tem tendências suicidas, ainda que todos os demais personagens do filme já tenham deixado isso bem claro. O roteiro também é um equívoco, irregular e desprovido de qualquer singeleza ou substância para tornar toda a trama, ao menos, interessante a quem assiste.
Se Uma Dama em Paris vale de alguma coisa, deve-se aos ótimos e convincentes desempenhos de Moreau e da estoniana Laine Mägi. A elas, desejo boa sorte na escolha de seus projetos futuros. (*)
Previsão de estreia nos cinemas: 19 de julho
UMA DAMA EM PARIS (Une Estonienne à Paris) França/Bélgica/Estônia, 2012
Diretor: Ilmar Raag
Roteiro: Agnes Feuvre, Lise Macheboeuf e Ilmar Raag
Elenco: Jeanne Moreau, Laine Mägi e Patrick Pineau
Pelos filmes anteriores da série, conhecemos o magnata Tony Stark como um cara extremamente narcisista e egocêntrico, sempre fazendo piadinhas irônicas com quem está à sua volta e maquinando entradas não menos que triunfais quando adentra algum ambiente. Armado com discursos que desfilam prepotência, combinado com sua aparência frequentemente arrogante, Stark rouba a cena de qualquer um e conquista inimigos e admiradores por onde passa. A questão é que neste novo (e possivelmente último) capítulo da trilogia, o espectador se depara com uma versão vulnerável do cientista, que prefere se isolar em seu QG subterrâneo a se exibir publicamente. A condição insegura do protagonista nem é tão explorada pelo filme, mas o seu conflito pessoal motiva o roteiro a dedicar mais espaço na trama para Stark do que ao Homem de Ferro. Para um filme de pretensões comerciais, esta é uma opção arriscada, mas certeira, visto que é o atrativo que faz deste exemplar o melhor da trilogia.
Por outro lado, não encaro essa “substituição” com muita surpresa, pois o ator Robert Downey Jr. encontrou em Stark o papel definitivo de sua carreira, encarnando-o com naturalidade, desenvoltura e toneladas de carisma. Portanto, nada mais compreensível a produção destacar o milionário na trama em detrimento de sua versão “enlatada”. A preferência, entretanto, não significa que o filme seja econômico nas cenas de ação e raso na modelagem de seu conflito, que, em nível de comparação, nos apresenta a um vilão muito superior aos interpretados por Jeff Bridges e Mickey Rourke nos filmes antecessores.
Concentrando-se boa parcela da narrativa na crise particular do personagem-título – “nós criamos nossos próprios demônios” –, o roteiro escrito pelo estreante Drew Pearce ao lado do também diretor Shane Black narra o ressurgimento do super-herói quando ele tem a sua mansão destruída pelos capangas do Mandarim (Kingsley), um diabólico terrorista de descendência asiática que atormenta o mundo com explosões aleatórias e ameaças invasivas na televisão. Tendo que começar do zero, Stark conta com a ajuda de seu amigo computadorizado Jarvis (voz de Paul Bettany) para localizar o temido criminoso e também resgatar a amada Pepper Potts (Paltrow), que fora sequestrada por ele.
O script equilibra satisfatoriamente os avanços da trama central, que objetiva derrotar Mandarim, com o sutil processo de humanização de Stark, cujos constantes ataques de ansiedade indicam uma fragilidade emocional que só vem a enriquecer o personagem psicologicamente. Ademais, com a perda de seus equipamentos tecnológicos, o homem de ferro soa frequentemente como uma lata velha, já que precisa se reerguer para enfrentar um inimigo que não conhece limites, a ponto de ambicionar a criação de uma nova espécie da raça humana, agora resistente a altas temperaturas.
Por conta disso, o senso de perigo neste novo capítulo é muito mais palpável e real, pois Stark está desarmado, o que torna muito mais concretas as chances de ser vencido. Entretanto, assim como os anteriores, Homem de Ferro 3 jamais almeja a seriedade – e isso seria um problema? –, já que a fórmula despretensiosa e descontraída em que a série foi fundamentada foi bem recebida pelo público, permitindo o filme abusar de um humor oscilante entre tons sarcásticos e infantis.
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O homem que faz a armadura ou a armadura que faz o homem? “Homem de Ferro 3” humaniza Tony Stark sem descartas boas cenas de açãoAté então, a única experiência de Shane Black atrás das câmeras foi no comando da comédia Beijos e Tiros(2005), também protagonizada por Downey Jr., e nesta empreitada exigente, o diretor se confirma um discípulo fiel e eficiente de Jon Favreau, que cede a cadeira de direção e assume a produção do filme, além de reviver seu hilário personagem, agora viciado na série britânica Downton Abbey. Mas a contribuição de Black não se resume a uma cópia carbono de Favreau, pois o iniciante preenche lacunas com toques de originalidade e capitaneia cenas de luta e explosão com bom tato técnico e ritmo alucinante. E sendo o roteirista de outra série de sucesso, Máquina Mortífera, Black encontra espaço para fazer uma divertida autorreferência no terceiro ato com Stark e o Patriota de Ferro interpretado por Don Cheadle em uma cilada típica das que Mel Gibson e Danny Glover protagonizavam na célebre franquia.
Mesmo divertido e envolvente, Homem de Ferro 3 exibe alguns problemas de... “prioridades”, digamos assim. Afinal, dúvidas óbvias referentes ao comportamento e decisões de Stark levam o espectador a se perguntar “por que diabos ele não fez isso antes?” ou “cadê os Avengers para ajudar o cara, que está pura sucata?”. Enfim, não vou entrar muito no mérito, mas a trama revela alguns motes rocambolescos, como a péssima introdução de personagens e furos tolos, que, ironicamente, o próprio filme acaba se entregando. Há uma cena em que Tony parte de Tennessee em direção à Flórida em uma caranga muito velha e a viagem dura apenas uma noite. Eis que, detido pelos ajudantes de Mandarim, ele pergunta a um deles a distância entre os dois Estados, ao passo que o homem responde: “1.340 km”. Como Stark viajou esse percurso em apenas uma noite permanece um mistério. Se não bastasse, há os clichês clássicos do gênero e a estrutura convencional, mas o molde é garantia de sucesso e, como dizem, em time que está ganhando não se mexe. Detesto esse bordão e, nesse caso, funciona perfeitamente como um atestado de limitação criativa.
Com novos nomes integrados ao elenco tradicional, a bela Rebecca Hall interpreta uma das conquistas de Stark no passado, uma jovem especialista em botânica que se torna uma ponte para ele chegar ao seu alvo, porém é uma pena que sua personagem seja descartável e tão maltratada pelo roteiro. O mesmo não se pode dizer de Guy Pearce, que vem se profissionalizando em interpretar anti-heróis (O Pacto, Os Infratores...), encarnando um cientista maluco e sedutor que busca parceria com a Stark Industries para desenvolver um projeto científico, mas tem sua oferta declinada. Eis que chegamos ao grande destaque da produção: a excelente participação do veterano Ben Kingsley como o temível Mandarim. Com empenhada caracterização, o ator compõe o vilão com um mix de sadismo, histeria e doses de comicidade. É o elemento mais proveitoso do filme e, certamente, merecia mais ênfase na história.
Com evidente tom político e apesar das falhas, Homem de Ferro 3 é divertido e finaliza (?) a saga de Stark no cinema alicerçado nos mesmos pilares que foi iniciada: bom humor e competentes cenas de ação. A novidade é que o filme não tem nenhuma. (***)
HOMEM DE FERRO 3 (Iron Man 3) EUA/China, 2013
Direção: Shane Black
Roteiro: Drew Pearce e Shane Black
Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Ben Kingsley, Don Cheadle, Jon Favreau, Rebecca Hall, William Sadler, Ty Simpkins e Paul Bettany
A animação Wall-E (2008), sobre o robozinho solitário que assume a missão de limpar a sujeira na Terra, é uma obra-prima do cinema. Ficção científica por excelência, a história nos remete a um futuro castigado pelas ações dos terráqueos, cuja displicência resulta em um planeta sucateado e sem vida. Embora esteja ciente do quão devastado se encontra o planeta, a pequena lata velha pressente que a Terra é o único lugar em que deve morar. De repente, o mundo de Wall-E fica colorido quando ele conhece a enigmática Eva, uma robozinha tecnológica e programada para uma tarefa específica na Terra. Ela reascende a esperança do robô em habitar a Terra, e ele vai lutar, seja com quem for, para que vivam juntos como um casal, mesmo que sob condições desfavoráveis.
Se filmado em live action e substituíssem o nome de Wall-E pelo o de Tom Cruise, em vez do grande título da Pixar, teríamos o blockbuster Oblivion, novo veículo para o astro cinquentão provar à audiência que ainda está em forma. Seria injusto dizer que se trata de um caso de plágio, mas não dá para ignorar o fato de que a premissa de ambos os filmes e as bases que sustentam a trama central são praticamente as mesmas, salvas por sutis diferenças no enredo. Do mesmo modo, a imensa semelhança da produção com outros títulos não cessa por aí.
O clássico Planeta dos Macacos (1968) também tem a sua porção de similaridades, como o repouso delta, que permite um ser humano dormir por décadas, e a escolha dos roteiristas para o local em que o protagonista levemente recorda de sua antiga paixão: um binóculo da Estátua da Liberdade, em Nova York, cidade que imprime extrema importância para a derradeira e fabulosa cena final do exemplar de 68. Já a parcela de “inspirações” de uma das obras máximas do gênero, 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, provém da tecnologia como vilã da história e a aparência das máquinas de combate drones com o olho vermelho idêntico ao personagem Hal 9000.
Muitos, em defesa de Oblivion, vão afirmar que tais referências são bem intencionadas para prestar algum tipo de homenagem a esses célebres filmes, que deram novo fôlego e rumo à ficção científica no cinema. Eu até concordo. Uma ou outra inclusão seria bacana até de os fãs e cinéfilos identificarem tais momentos; mas utilizar ideias passadas e reciclá-las para criar uma própria não parece uma escolha muito apropriada, nem mesmo saudável para o filme em si. Parece que, na ânsia de incluir e disparar menções a outros projetos, Oblivion carece de desenvolver uma identidade própria e de fortalecer a sua “contribuição” – mesmo que pouco pertinente – a um gênero, infelizmente, subaproveitado e geralmente deixado de escanteio no cinema contemporâneo.
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Uma orgia de referências: a ficção científica “Oblivion” excede nas “homenagens” e se esquece de criar uma ideia própriaBaseado na graphic novel homônima assinada pelo diretor Joseph Kosinski, Oblivion se passa em 2077, sessenta anos após a Terra ter sido destruída por saqueadores que ainda ameaçam retornar para tomar o que não é deles. Para isso, o comando de Titã – local onde os terráqueos estão abrigados – enviam os soldados Jack Harper (Cruise) e Victoria (Riseborough) para manter a ordem na Terra, cuidar das hidroplataformas e habilitar os drones para proteger o território dos inimigos. Eis que um dia, inesperadamente, um objeto voador adentra a órbita do planeta, perde controle e força uma aterrissagem. Jack vai identificar os possíveis “invasores” e se dá conta de que são humanos. A partir dessa descoberta, uma cadeia de acontecimentos coloca em dúvida tudo o que Jack sabe sobre si mesmo, inclusive a sua própria existência.
Preferindo habitar uma zona de conforto em vez de partir para ousadias, Oblivion jamais explora o seu potencial dramático, prende-se a repetições desnecessárias e nem mesmo consegue atingir um ponto muito satisfatório para as desamarras dos conflitos criados na trama. Os roteiristas Kosinski, Karl Gajdusek e Michael Arndt elaboram um script ambiciosamente infantil e não oferecem nada muito além de um passatempo apenas bacana em sua proposta, mas paupérrimo em se tratando de clímax. Tanto é que o personagem mais interessante do projeto e mais bem desenhado é o próprio universo triste que sobrou da Terra após a guerra alienígena. Quando parte para os personagens de carne e osso e as oposições narrativas, o filme se revela relativamente frágil e engessado.
Talvez a personagem da britânica Andrea Riseborough, a controladora Victoria, saia ilesa de críticas negativas, tanto pelo seu papel fundamental na história como pelo bom desempenho da atriz. O mesmo não se pode dizer de Olga Kurylenko, sendo que até os drones despertam mais empatia no espectador do que a sua presença apagada e medíocre em cena. Já quanto a Tom Cruise, embora a vaidade e os lapsos de narcisismo sejam imperantes e gerem desconforto, não há como negar que o astro segura muito bem um filme, por mais bobo que ele possa ser. Encarando sempre as produções de ação classe A de Hollywood – enquanto o pobre do Nicolas Cage se contenta com as migalhas criativas –, o ator entrega uma boa performance física e apoiada na solidão, criando um diálogo interessante com o aspecto visual do filme, desde o branco asséptico do design de produção e a neutralidade dos figurinos, passando pela fotografia dessaturada de Claudio Miranda, especialista em constituir ambientes lúcidos e contrastantes.
Em um ano que será marcado por vários exemplares de ficção científica estreando nas salas de cinema, 2013 definitivamente inaugura o calendário sci-fi com o lançamento de Oblivion, um filme convincente e bem tracejado, que, lamentavelmente, se prende em argumentos alheios e se esquece de criar algo mais relevante para si mesmo. (***)
OBLIVION (Idem) EUA, 2013
Direção: Joseph Kosinski
Roteiro: Joseph Kosinski, Karl Gajduek e Michael Arndt
Elenco: Tom Cruise, Andrea Riseborough, Olga Kurylenko, Melissa Leo, Morgan Freeman, Nikolaj Coster-Waldau e Zoe Bell
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A maternidade é o tema central do terror “Mama”, produzido por Guillermo del Toro
Não por acaso, os melhores filmes do cineasta Guillermo del Toro são contos de suspense com alto teor de fantasia, explorados pela perspectiva inocente de uma criança. A Espinha do Diabo (2001) e O Labirinto do Fauno (2006) são obras superlativas que sedimentaram o nome do mexicano como um dos autores mais imaginativos do cinema contemporâneo, tendo se tornado quase um consultor criativo àqueles que têm pretensões de filmar histórias obscuras envolvendo assombrações sob o ponto de vista infantil.
Sabendo disso, é compreensível a sua decisão de financiar as filmagens de Mama, uma coprodução Espanha/Canadá sobre duas irmãzinhas dadas pela polícia como desaparecidas, mas que foram criadas na floresta por um fantasma cheio de amor maternal. Cinco anos após o sumiço das garotinhas órfãs, elas são localizadas e vão morar com o afetuoso tio Lucas (Coster-Waldau) e sua namorada Annabel (Chastain), guitarrista de uma banda de rock que não tem aspirações de ter filhos tão cedo e acaba assumindo o papel de mãe por obrigação. Lidar com as pequenas é uma tarefa difícil para o casal, visto que elas se comportam de forma selvagem devido à criação primitiva que tiveram no meio do mato; no entanto, o grande problema é confrontar o espírito aterrorizante de Mama, que invade a casa para recuperar as filhas que nunca teve.
Baseado no curta-metragem homônimo filmado em 2008, Mama empresta uma fórmula convencional para desmembrar a sua trama. O espectador está diante do velho argumento da desconhecida e imensa casa de muitos cômodos, onde habita uma criatura macabra que assusta todos os moradores. Mesmo se valendo de ideias batidas, no entanto, o diretor de primeira viagem Andy Muschietti – também responsável pelo curta – prova ter um olhar refinado para o gênero, encorpando a história com notável arrojo estético, uma opção funcional tanto para a beleza involuntária da obra como, principalmente, para ampliar seu perfil tenso e impactante. Nesse sentido, fartos elogios também vão para a contribuição do diretor de fotografia Antonio Riestra na contraposição de sombras, essencial para sustentar o clima sinistro da produção.
Há uma cena muito bem idealizada no filme em que Annabel está subindo as escadas e a câmera se mantém estática no corredor do segundo piso. Pode-se considerar que o espaço mostrado é dividido em duas “zonas”: o da protagonista e o quarto com a porta aberta em que uma das garotinhas está pulando, brincando e se divertindo com alguém que o espectador não consegue enxergar, mas supõe, naturalmente, que seja a outra irmã. Mas não é, pois a outra menina aparece saindo de outro cômodo. Mama apresenta ótimos momentos que preferem não evidenciar tudo, repassando a tarefa para a imaginação do espectador dar continuidade ao que apenas é sugerido, como também faz os distintos Os Outros (2001) e O Orfanato (2007).
Todavia, à medida que a trama avança, o roteiro expõe seus problemas de estruturação narrativa. O mais grave deles é a síndrome da crise de identidade, já que o filme não se decide em estabilizar uma abordagem com os pés na realidade ou com tom de fábula. Essa oscilação de “caráter” custa a seriedade da obra; afinal, é uma pena observar um terror com atmosfera soturna e envolvente, como é no início, se sacrificando provavelmente em prol da performance comercial do filme, entregando respostas fáceis e resoluções comuns. Até mesmo Muschietti, que, a princípio, evitava se render a recursos bobos e batidos do terror, na verdade, estava resguardando esses artifícios para distribuir sustos gratuitos na parte final.
Repleta de tattoos pelo corpo, com camisetas estampadas com símbolos dos Ramones e Misfits, a multifuncional Jessica Chastain defende a figura de Annabel com muita desenvoltura e ostentando uma peruca pavorosa na cabeça que a faz parecer a sobrinha de Liza Minelli. A atriz não chega a ser uma scream queen (rainha do grito), até porque sua personagem não compartilha muitos momentos de histeria; porém, Chastain se mostra confortável e habilidosa em não deixar seu retrato cair no lugar-comum da mulher amedrontada e desprotegida. Mas é lamentável a decisão dos produtores de “enriquecer” o desempenho do ator Javier Botet, a Mama (foto de bastidores), com CGI e efeitos visuais relativamente incompetentes. Assim como no curta-metragem, não há dúvidas de que se fosse um ator, sem “ajuda” de computador, a fita seria muito mais assustadora.
Tratando da maternidade como tema principal, Mama é uma grande promessa que se concretiza pela metade, pois contém momentos realmente proveitosos e outros que o clichê se assume imperativo. Terror por terror, eu prefiro o pagodinho erótico da Valesca Popozuda. (***)
MAMA (Idem) Espanha/Canadá, 2013
Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Neil Cross, Andy Muschietti e Barbara Muschietti
Elenco: Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau, Megan Charpentier, Isabelle Nélisse, Daniel Kash, Javier Botet e Jane Moffat
Em parceria com Kirk De Micco, o diretor Chris Sanders, do ótimo Como Treinar o Seu Dragão (2010), sai da Idade Média e regride no tempo até a era pré-histórica para narrar as aventuras da família Crood.
Com a missão de preservar a segurança de seu clã, o patriarca Grug (Cage), teimoso e alheio a novidades, mantém todos presos em uma caverna e os proíbe de sair desacompanhados, fortalecendo sua teoria do perigo exterior com contos que ele próprio inventa sobre humanos que foram devorados por criaturas ferozes, simplesmente porque estes foram movidos pela curiosidade de ver o que o mundo tinha-lhes a oferecer. Todas essas balelas são indiretas para a sua filha mais velha, Eep (Stone), garota com indomável espírito aventureiro, que, consequentemente, é reprimido pela figura paterna. Um dia, ela sai da caverna às escondidas e encontra por acaso o desbravador Guy (Reynolds), por quem a jovem fica encantada. Guy se alia aos Croods e, juntos, iniciam a exploração de um mundo dotado de uma beleza ímpar.
Os roteiristas Sanders, De Micco e John Cleese (ex-Monty Phyton) certamente buscaram sua principal referência para embasar o enredo da animação Os Croods no Mito da Caverna, de Platão, já que as metáforas e alegorias desdobradas pelo filósofo em seu texto são repercutidas com ênfase no filme, principalmente em sua primeira parte, quando a família abandona a caverna por motivos maiores e são obrigados a interagir com o desconhecido ambiente externo. Direcionado, principalmente, ao público infantil, claro que não se poderia exigir uma interpretação muito densa das inúmeras interpretações possíveis da seminal obra do pensador grego, mas mesmo em seu simbolismo superficial, é interessante observar a habilidade dos escritores em incluir alguns elementos na trama e fazê-los se manifestar naturalmente, tal qual a representação da escuridão como um obstáculo para a liberdade, e a luz como a sabedoria, o conhecimento, a razão.
A primeira parte da história, com a apresentação dos personagens e o retrato de como (sobre)vivem no cenário desfavorável que estão inseridos, é fantástica pela energia imprimida nas cenas iniciais, como a bela e fluente narração em off sobre a cultura e convivência dos Croods, enquanto são mostradas gravuras nas paredes, típicas dos homens cavernosos, ou a eletrizante sequência em que a família rouba o ovo de um bicho para garantir o jantar e tentam retornar vivos para a caverna. Outro ponto positivo, agora para o deleite dos adultos, é a argúcia do script em trabalhar de forma revigorante a analogia com o já comentado Mito da Caverna, utilizado como contexto básico do conto.
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Baseado no “Mito da Caverna”, de Platão, “Os Croods” é uma animação pré-histórica cujo principal atrativo é o visual inebrianteEntretanto, a partir do momento em que os Croods abandonam a escuridão e conquistam a própria independência, a animação cede aos “encantos” da aventura-lugar-comum-de-entretenimento-familiar e praticamente ignora o raciocínio tracejado com perspicácia desde o seu início. Sem muita criatividade, Os Croods discute os conflitos geracionais ocasionados pela mentalidade rústica do pai e a sede por liberdade e descobertas dos jovens. O filme peca pela fragmentação do seu conteúdo, encadeando o desenvolvimento narrativo em parcelas de “emboscadas surreais”, investidas de humor nem sempre satisfatórias e, previsivelmente, cenas com forte carga emocional. Além de não ser funcional como uma unidade, a opção por exilar os demais membros do clã como meros discípulos do pai, sem atribuir voz aos personagens secundários, também enfraquece o projeto. A avó, por exemplo, é uma figura que aparentava ter potencial para progredir na trama, mas não passa de um alívio cômico quando surge toda sorridente ao sobreviver de algum incidente, para a infelicidade de Grug.
E por falar nele, o mais lamentável é concluir que o principal demérito da animação reside na figura do protagonista, personagem inicialmente controlador e adorável pela sua rabugice, que é completamente descaracterizado durante a história, assumindo-se como a principal alavanca para piadinhas pouco inspiradas. Os Croods, quase sempre, denuncia sua fragilidade quando o neandertal patriarca está em cena protagonizando seus planos mirabolantes e difíceis de o espectador levar a sério, como é explícito na cena em que ele e Guy ficam preso no piche e ele resolve atrair um bicho perigoso, espécie de gato gigante, para lhes salvar. A resolução é até aceitável, se na cena anterior, ele não estivesse correndo desesperado floresta adentro para se salvar do mesmo animal.
Tendo o brilhante diretor de fotografia Roger Deakins como consultor criativo, era impossível esperar menos de um visual embriagador. Nesse sentido, Os Croods é irretocável, ainda mais com a imersão do bom 3D. Desde a seleção de cores hipnotizantes até a concepção detalhista dos personagens, com a sujeira já fazendo parte dos seus corpos – a qual eles chamam de “camada protetora –, a plasticidade e o design gráfico respondem pelo grande triunfo da animação. Uma pena que o mesmo sucesso não se repita com a história, que se revela muito promissora no início, mas logo, mostra suas arbitrariedades e descamba para o mais do mesmo. (***)
OS CROODS (The Croods) EUA, 2013
Direção: Chris Sanders e Kirk De Micco
Roteiro: Chris Sander, Kirk De Micco e John Cleese
Vozes de Nicolas Cage, Emma Stone, Ryan Reynolds, Catherine Keener, Cloris Leachman, Clark Duke, Chris Sanders e Randy Thom
Em termos de quantidade de salas de cinema, Maringá pode ser considerado um lugar privilegiado. Vamos lá: cidade do interior, pouco incentivo à cultura por parte dos órgãos públicos e um gosto muito demarcado pela territorialidade. Atualmente, o município conta com 18 salas de exibição (todas em shopping centers), e devo parabenizar os programadores pela diversidade de filmes que estrearam no cinema comercial da cidade nos últimos meses. Muito bacana. Ainda assim, ficaram faltando alguns, seja por cópias reduzidas no circuito nacional ou mesmo falta de interesse dos exibidores locais.
Muitos desses grandes filmes, no entanto, já podem ser alugados nas videolocadoras. Por essa razão, o Pós-Première dá continuidade à seção “O que tem de bom na locadora?” para sugerir alguns títulos que não passaram nas telonas maringaenses e outros que, lamentavelmente, foram lançados diretamente em home vídeo.
Outros “guias” publicados anteriormente: #1 / #2 / #3

É difícil não se emocionar com os depoimentos cheios de dor e luto presentes em Bullying. O documentário promove uma discussão necessária sobre esse problema cada vez mais frequente nos colégios ao redor do mundo. Sem recorrer a análises psicológicas entre opressor e vítima, visto que esse fenômeno já está praticamente naturalizado nas escolas, o diretor Lee Hirsch, por meio de histórias reais, busca uma satisfação das autoridades escolares e políticas para controlar o bullying. E é lamentável comprovar o que todos desconfiam: o descaso e deficiência de escolas e do departamento policial, que retiram a responsabilidade de seus ombros e argumentam a seu favor que “não podem mudar o comportamento de uma criança”.
O documentário apresenta personagens socialmente excluídos, como uma jovem homossexual que já foi ameaçada de morte, uma garotinha negra que, cansada do preconceito no ônibus escolar, rendeu vários agressores com um revólver e pais de adolescentes que se suicidaram e, agora, fazem manifestações em escolas e reuniões com diretores e representantes públicos para debater o bullying. Ainda que o assunto em voga seja naturalmente depressivo, Hirsch contorna o tom fúnebre com um respeito imenso demonstrado pelos familiares e a contemplação de belas tomadas, nunca desviando a atenção do espectador para a importância do tópico examinado pelo filme.
BULLYING (Bully) EUA, 2012
Diretor: Lee Hirsch
Roteiro: Lee Hirsch e Cynthia Lowen

É um mistério tentar decifrar como funciona a cabeça dos tradutores brasileiros, porque creio eu que não haveria tradução mais imbecil para o filme Damsels in Distress (no pé da letra, Donzelas em Perigo) do que Descobrindo o Amor. Primeiro, porque nenhum personagem está na fase de descobrir nada, e segundo, porque esse título tolo e ingênuo não combina com a acidez dessa inspiradíssima comédia. E se digo que o filme é “ácido”, o mais apropriado seria compará-lo com aquelas balas cor-de-rosa inicialmente ardidas que liberam um gosto adocicado no final, já que Descobrindo o Amor segue uma linha de comportamento em ser docemente depreciativo sem abdicar de argumentos sólidos que justifiquem a ofensa. Uma cena que pode ilustrar perfeitamente esse paradoxo é quando uma garota diz com seriedade que determinado dormitório da faculdade possui maior índice de fatalidade, sendo que alguns são suicidas assumidos, enquanto outros se jogam janela abaixo por desconhecerem a lei da gravidade. Risos.
Escrito pelo também diretor Whit Stillman, o enredo se embasa em três universitárias que seguem uma inusitada filosofia de vida, com doutrinas e padrões determinados por elas próprias. Um dia, elas recrutam uma novata para adentrar ao grupo e a escolhida é a sensível Lily. Sem se prender a uma história específica, o roteiro discorre a amizade do quarteto e mostra a visão dessas garotas sobre os eventos que ocorrem ao seu redor, confirmando Descobrindo o Amor como uma vitrine para personagens excêntricas. Guardada as devidas proporções, o filme é como se fosse uma versão loser de Meninas Malvadas (2004), menos comercial e com um humor mais peculiar.
DESCOBRINDO O AMOR (Damsels in Distress) EUA, 2012
Direção e Roteiro: Whit Stillman
Elenco: Greta Gerwig, Analeigh Tipton e Megalyn Echikunwoke

A estreia em longas-metragens da jovem Julia Murat, filha da diretora Lucia Murat (Brava Gente Brasileira, Quase Dois Irmãos...) é um material rico, capaz de gerar diversas alegorias e interpretações. O filme é ambientado no fictício vilarejo de Jotuomba, no Vale da Paraíba, um lugar onde os habitantes praticamente esqueceram de morrer. Cada um deles desempenha um papel relevante para manter o vilarejo “vivo”, e o filme enfoca a rotina de Madalena, idosa responsável por abastecer o armazém de outro morador com os pães que faz, sob a luz de velas, religiosamente às noites do dia anterior. A chegada de uma mochileira no local deixa todos incomodados, com exceção de Madalena, que, num instinto maternal, resolve abrigar a garota em sua humilde casa.
A trama do belo Histórias Que Só Existem Quando Lembradas representa um jogo de contraposições: velho e novo, passado e futuro, tradição e modernidade. O tempo assume o protagonismo da história e o filme, propositalmente calmo e repetitivo para sustentar seus significados, oferece um mar de reflexões sobre a memória e a efemeridade da vida, sempre de forma muito tocante e sensível. Assim como nos filmes do mexicano Carlos Reygadas, Histórias... posiciona seus personagens como indivíduos presos no tempo, talhados em um roteiro enxuto em diálogos e que, em detrimento dos corpos, valoriza as paisagens abundantes em simbolismos. Não há dúvidas de que Murat-filha adentrou o cinema com o pé direito.
HISTÓRIAS QUE SÓ EXISTEM QUANDO LEMBRADAS (Idem) Brasil, 2012
Diretora: Julia Murat
Roteiro: Julia Murat, Maria Clara Escobar e Felipe Sholl
Elenco: Sonia Guedes, Lisa Fávero e Luiz Serra

E quando já estamos conformados de não esperar nada de inovador do gênero terror, eis que o diretor estreante Drew Goddard brinda o cinema de entretenimento com o divertidíssimo O Segredo da Cabana, que teve um merchan tímido no Brasil e foi vergonhosamente lançado direto em home video. O filme é uma grande sátira da falta de espontaneidade dos pastelões do terror, com suas armadilhas previsíveis e sustos programados. A história se concentra em cinco jovens que planejam passar o fim de semana em uma cabana distante da cidade. Com a única missão de se divertirem, eles jamais desconfiam de que são participantes de um reality show mortal, cujo prêmio é conseguirem sair do recinto com vida.
Corroteirizado pelo ótimo Joss Whedon, que recentemente migrou da televisão e está construindo uma carreira consistente no cinema (Serenity, Os Vingadores...), O Segredo da Cabana se revela um exemplar perfeito em mesclar terror e comédia. Esse feito é conquistado graças à interação das vítimas, às piadas que transbordam sadismo dos produtores interpretados por Richard Jenkins e Bradley Whitford e, sobretudo, à insanidade do terceiro ato, que levanta um exército de monstros e protagonizam um festival de tripas e membros decepados. Original em sua ideia e brilhante no desenvolvimento da história, trata-se de uma das maiores e mais surpreendentes produções do ano.
O SEGREDO DA CABANA (The Cabin in the Woods) EUA, 2012
Direção: Drew Goddard
Roteiro: Joss Whedon e Drew Goddard
Elenco: Kristen Connolly, Fran Kranz e Chris Hemsworth

Após engolir um papagaio, um felino com sentimentos humanos começa a falar repentinamente e, bem como o seu dono, um rabino, o bichano deseja se coverter ao judaísmo e vai tentar a sorte em uma sinagoga. Eis a conversa com o rabino superior: “Pergunto-lhe qual a diferença entre um humano e um gato. Ele me responde que Deus fez o homem à sua imagem. Peço-lhe que me mostre uma imagem de Deus. Ele me diz que Deus é uma palavra. Digo ao rabino do rabino que, se o homem é semelhante a Deus por saber falar, eu sou semelhante ao homem.” Esse trecho é simplesmente genial, e é somente uma amostra do texto afiado da animação O Gato do Rabino, adaptação da famosa HQ francesa criada por Joann Sfar, que também assume a codireção e o corroteiro do projeto para o cinema.
Ambientado na Algéria de 1920, o filme se revela contemporâneo com a inteligência do roteiro em desdobrar uma lógica racional e crítica do dogmatismo religioso, principalmente a religião hebraica, colocada à prova pela fita. No entanto, O Gato do Rabino não se presta a desmitificar as escrituras de graça, desenhando sua análise com um senso de humor irreverente e estimulante, sendo o gato do título, o papel do questionador, do “indivíduo” que procura provas concretas antes de depositar sua fé em alguma crença. Dotado de liberdades narrativas que permite a trama dar piruetas e soar relativamente incoerente em alguns momentos, a animação é um poço de criatividade, com destaque absoluto ao texto descontraído, herético e delicioso.
O GATO DO RABINO (Le Chat du Rabbin) França/Áustria, 2011
Diretores: Antoine Delesvaux e Joann Sfar
Roteiro: Sandrina Jardel e Joann Sfar
Vozes de François Morel, Maurice Bénichou e Hafsia Herzi
É questão de tempo para A Hora Mais Escura ser canonizado como um clássico do cinema. E não me refiro a essa consagração somente levando em conta seus méritos cinematográficos; futuramente, vejo o filme como o testamento a limpo de um fato importante para a História, no caso, a captura do então líder do grupo terrorista Al-Qaeda, Osama Bin Laden. Assim como Sem Destino (1969) foi tombado em sua época e é reconhecido até hoje como a obra que imprimiu o espírito da contracultura nos Estados Unidos, ou ainda Todos os Homens do Presidente (1976), que reconta passo a passo o Escândalo de Watergate, penso eu que A Hora Mais Escura não terá “concorrentes” em ser definido como a principal referência em celuloide sobre a caçada de Bin Laden. Na verdade, nem deveria correr esse risco, pois o projeto documenta detalhadamente todas as rotas que chegaram ao fatídico 1º de maio de 2011, quando o alvo foi localizado em uma casa – que mais parecia uma fortaleza – no Paquistão e morto durante uma operação da CIA. Sei que há muitas controvérsias se o homem está realmente morto ou se o governo norte-americano não financiou o seu silêncio eterno, mas até que prove o contrário, essa permanecerá a versão oficial.
Em uma tela negra indicando luto, o filme tem início com o áudio original recuperado da caixa preta dos aviões sequestrados na manhã do 11 de setembro, intercalando falas da tripulação e passageiros desesperados. A partir daí, segue a eletrizante trajetória da agente Maya (Chastain) e seus auxiliares na busca pelo homem mais procurado do mundo. O roteiro magistralmente escrito por Mark Boal se apropria de uma contundente veia jornalística para recriar os episódios que levaram ao desfecho já conhecido por todos, entregando um retrato racional e calcado em pormenores de uma jornada esgotante, marcada por conquistas e frustrações. Com a árdua missão de sumariar 10 anos de busca em apenas 157 minutos, é admirável o esforço do roteirista em driblar a fragmentação dos trechos com um raciocínio narrativo linear extremamente bem tracejado, fazendo com que todas as passagens da história sejam consonantes para a captura de Bin Laden.
Talvez a tarefa mais arriscada, no entanto, fosse tornar cada momento do filme interessante aos olhos do espectador, algo que Boal alcança com êxito. Isso porque a narrativa é repleta de camadas e exerce uma reciprocidade com o público no sentido de atribuir diferentes atmosferas, conforme requer determinada cena. É um filme plural em “sentimentos”, transitando da brutalidade para a frieza, do clima de tensão para a objetividade, da especulação emotiva para uma abordagem mais racional e assim por diante. Além disso, o roteiro é bem sucedido na arquitetura de algumas passagens, que incluem transações e deslocamentos do mesmo assunto em até três ambientes, como a cena em que dois agentes conversam em uma sala de monitoramento sobre os possíveis moradores da casa onde Bin Laden estaria abrigado, cortando para o mesmo assunto sendo discutido na Casa Branca e, enquanto o chefe da CIA continua narrando, são mostradas várias ações no Paquistão que confirmam a fala do personagem. Beneficiado pelo excelente trabalho dos montadores William Goldenberg e Dylan Tichenor, trata-se de um recurso inteligente que garante mais agilidade e não sobrecarrega o espectador com cenas muito densas e “chatas”.
Com algumas situações que trazem legendas de localizações anônimas e informações confidenciais, o script se revela uma primorosa e urgente pesquisa no desenrolar dos fatos e na conexão que estabelece entre cada um deles. O argumento de A Hora Mais Escura é metódico e de caráter gradativo, pois prefere convencer a audiência – e os próprios personagens da trama – da importância da captura de Osama Bin Laden para interromper os atentados provocados pelas células da Al-Qaeda na Europa, do que simplesmente ignorar interrogatórios precedentes que levariam ao paradeiro do terrorista. Esta discussão, inclusive, rende uma das cenas mais nervosas da produção, quando Maya empareda o seu chefe e tenta lhe abrir os olhos de que “Bin Laden é a chave para encerrar os atos terroristas”. O filme não recorre a soluções fáceis, pelo contrário, até dificulta o processo – afinal, foram 10 anos até localizar o homem – e vai apresentando pouco a pouco as migalhas que culminaram na morte do saudita. Todo esse desmembramento é embalado pela essencial trilha sonora do francês Alexandre Desplat, que assume um papel de suma importância na história.
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“A Hora Mais Escura” é um forte candidato a clássico do cinema por reconstituir com destreza um fato crucial para a História dos EUAJá tendo demonstrado imenso talento na condução de Guerra ao Terror (2010), filme que a consagrou como a primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Direção, Kathryn Bigelow desempenha um trabalho multifacetado e de uma riqueza vital para o desenvolvimento da narrativa. Entre investidas de tom documental, mostrado na derradeira cena em que os militares invadem o esconderijo de Bin Laden, e o uso impecável e estratégico da câmera lenta para maximizar o impacto dos incidentes, Bigelow se apodera na maior parte da projeção de um tratamento cerebral e realista, em que os acontecimentos e descobertas são determinantes para o tipo de abordagem executado pela cineasta. No entanto, em meio à insensibilidade imperante, a diretora consegue enriquecer o filme com ângulos semânticos e distintos pela sutileza, como a bandeira dos Estados Unidos ao vento sendo desfocada por um trapo sujo em primeiro plano; o reflexo de Maya sobre um quadro da bandeira (foto acima) e o campo e contracampo entre dois agentes dialogando sobre um plano de ação, e quando abre a lente para mostrar o espaço, eles estão sozinhos e diminuídos pela grande dimensão do refeitório onde se encontram. O mesmo local ainda ostenta uma árvore de Natal ao fundo, indicando a dedicação integral que a CIA teve nessa operação.
E por falar em dedicação integral, finalmente chegamos ao cérebro da investigação. Determinada a encontrar Bin Laden até para saciar uma vingança pessoal, já que, indiretamente, o homem matou alguns de seus parceiros de trabalho, a personagem Maya é desenhada pelo roteiro como uma jovem sem amigos, laços familiares e que basicamente respira para localizar o terrorista. O mais interessante é como o enredo consegue, imbuído de muita habilidade, refletir os avanços da operação na personalidade de Maya, que representa toda a dualidade da força-tarefa, um misto de fragilidade com persistência. Nota-se na primeira parte que a mulher está abatida e fragilizada com os então recentes eventos no World Trade Center; no segundo ato, Maya se converte em um robô programado para fazer perguntas, e já na parte final, apresenta-se 100% segura de suas desconfianças, ainda que muitos duvidem de sua palavra.
Justamente por essa insegurança, Mark Boal abre espaço para impulsionar críticas precisas à passividade do sistema de segurança dos Estados Unidos, contrariando o que muitos espectadores insistem em confundir esta e a produção anterior de Bigelow, Guerra ao Terror, como uma propaganda norte-americana. Trata-se de um argumento cego e inconcebível para um filme que mostra uma subordinada da CIA anotando com caneta vermelha na porta de vidro de seu chefe a quantidade de dias que a central de inteligência permanece de braços cruzados ou ainda um representante confrontando a Casa Branca. E para aqueles que acusam o filme de “marketing estadunidense”, se a opção de Bigelow em mostrar um habitante paquistanês durante uma passeata segurando uma placa com os dizeres “Abaixo o terrorismo americano” não significa nada, o que resta é lamentar.
Encabeçado pela atuação espetacular da bela Jessica Chastain, A Hora Mais Escura é um suspense atordoante e minimalista que vai além de mapear os ocorridos que levaram à execução de Bin Laden; o filme é finalizado com a satisfação de dever cumprido, mas prevalece uma estranha sensação de vazio suficiente para deixar a nação desorientada. Isso porque, na verdade, sequer tem um caminho definido para seguir adiante. (*****)
A HORA MAIS ESCURA (Zero Dark Thirty) EUA, 2012
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal
Elenco: Jessica Chastain, Jason Clarke, Kyle Chandler, Mark Strong, Jennifer Ehle, Édgar Ramirez, James Gandolfini, Joel Edgerton e Chris Pratt
É incontável a quantidade de produções audiovisuais que usaram como fonte de inspiração a série de livros O Mágico de Oz, escrita nas três primeiras décadas do século passado pelo dramaturgo L. Frank Baum. A primeira adaptação data de 1910, um curta-metragem que condensa a obra The Wonderful Wizard of Oz em 13 minutos e meio. A grande homenagem ao clássico da literatura e que se estende até hoje como o melhor exemplar ajustado para as telonas viria com o filme homônimo dirigido por Victor Fleming em 1939, com Judy Garland no papel da indefesa Dorothy. Nos últimos anos, a história mágica de Baum foi modificada para o cinema em diversas formas e linguagens: animação (Regresso ao Mundo Maravilhoso de Oz, de 1974); uma versão com personagens negros (O Mágico Inesquecível, de 1978, que marca a estreia do astro Michael Jackson no cinema); e até nítidas influências consideradas “não oficiais”, como em Coração Selvagem (1990), de David Lynch e, saindo um pouco da Sétima Arte, as canções do lendário disco Dark Side of the Moon, do Pink Floyd.
Quando foi anunciado que o cineasta Sam Raimi, oriundo do cinema de terror trash, estava atrelado a um projeto que iria recontar a fábula de Baum, os mais esperançosos (eu, entre eles) aguardavam uma versão gore em que Dorothy seria uma garotinha perversa que iria torturar o Espantalho, o Homem de Lata e treinaria o Leão Covarde para, juntos, devorarem a fétida Bruxa Malvada do Oeste. Sim, na minha imaginação Dorothy seria praticante de canibalismo. Porém, isso não aconteceu e jamais uma ideia semelhante sairia do papel com os estúdios Disney na dianteira da refilmagem. Em vez disso, a produção se confirma uma aventura infanto-juvenil cheia de boas intenções ao prestar uma homenagem ao clássico seminal dos anos 30. No entanto, embora simpático e visualmente atrativo, Oz, Mágico e Poderoso é um genérico preguiçoso que não escapa das convenções aventurescas da Disney, cuja atual intenção parece ser arruinar clássicos da literatura infantil – vide Alice no País das Maravilhas (2010), de Tim Burton. No fim das contas, o resultado não é nem mágico, tampouco poderoso.
Roteirizado por Mitchell Kapner e David Lindsay-Abaire, a primeira parte da história nos introduz a Oscar (Franco), um mágico trapaceiro que se apresenta em um circo itinerante em Kansas, no ano de 1905. Sempre desmascarado pelo público no final dos seus espetáculos ultrajantes, o rapaz e sua fama de galanteador se envolvem com uma mulher comprometida e ele foge do namorado enfurecido em um balão, que acaba sendo engolido por uma imensa tempestade. É desta forma que Oscar aterrissa no mundo de Oz, um lugar bucólico, colorido e exuberante. Lá, ele conhece seres jamais vistos antes, como um macaco falante, uma boneca de porcelana animada e duas irmãs bruxas que moram na reluzente Cidade das Esmeraldas. Oscar é logo considerado a salvação de Oz, pois segundo o rei já morto, um mágico iria aparecer no local para assumir o trono, contanto que derrotasse as bruxas más que trouxeram a desordem ao lugar. Aliado à angelical bruxa boa Glinda (Williams), Oscar vai arquitetar um plano para devolver ao mundo de Oz seus tempos de harmonia e otimismo.
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“Oz, Mágico e Poderoso” é uma homenagem dócil e inofensiva ao clássico dos anos 30, e isso não significa que seja um bom filmeOz, Mágico e Poderoso se apresenta como um prelúdio do clássico de Fleming, já que sua trama acontece muito antes de Dorothy adentrar o tornado e parar na Terra Encantada. É injusto apresentar os contrastes de ambos os filmes, mas também é praticamente impossível se desprender de comparações, pois a nova releitura da obra permite essa dinâmica ao se apresentar como um declarado tributo. Mas mesmo que apresente referências bacanas em sua linguagem e narrativa, como o jardim que libera o pó adormecedor; a lembrança a alguns personagens do filme anterior e o primeiro ato em preto-e-branco e proporção da tela em 1,33:1, como pedia o cinema clássico, essas menções não são exatamente funcionais para a banalidade da narrativa, funcionando mais como artifícios para o filme escancarar seu status de homenagem do que qualquer outra coisa. Se não bastasse, a produção é alicerçada em clichês irritantes para compor seu roteiro e se perde nas simplórias tentativas de humor, basicamente concentradas nas reações de espanto do protagonista em contato com a magia do universo de Oz.
Sem se importar em adicionar profundidade no tratamento da história, o script do filme é configurado unicamente para convergir em um terceiro ato com confrontos que prometem ser épicos entre o bem e o mal. Porém, nem com muito esforço Oz consegue ser emocionante nas cenas decisivas, que mais levantam suspeitas da real possibilidade de concretizar o plano do protagonista do que deixa o espectador satisfeito com a vitória da batalha. Orçado em US$ 215 milhões investidos unicamente em cenários de CGI – que talvez seja o responsável por assassinar a imaginação do filme –, é frustrante notar que a grandiosidade do projeto seja direcionada exclusivamente para o entretenimento familiar ao dispor de um enredo artificial e inconsistente nem mesmo para os objetivos primários que desejava alcançar.
Como Oz, o ator James Franco abraça uma espécie de falso carisma, uma composição tola e ensaiada do herói picareta e ambicioso, não convencendo em nenhum momento e quase sempre tendo sua figura empalidecida pelos bem mais interessantes personagens secundários. Estes, que, por ventura, não conseguem escapar do retrato caricatural que lhes são fornecidos. A sempre espetacular Michelle Williams tem boa presença em cena como a graciosa bruxa boa, mas não vai muito além da arbitrariedade de sua personagem: um fiel interesse amoroso. Rachel Weisz também é limitada nas ações da sua malévola Evanora, mas mostra serviço e soa docemente cruel em seus momentos solos; já Mila Kunis assume integralmente a parcela de constrangimento do elenco, não exatamente pelo desempenho da atriz, mas pela má construção e ingenuidade narrativa que é envolta sua personagem.
As composições de Danny Elfman são problemáticas e pouco afinadas com o que se é projetado, pois parece ter a missão de convencer o público da dimensão homérica da aventura, quando, na verdade, o que se passa em cena quase nunca está à altura da trilha sonora “potente”. Com bons efeitos tecnológicos e um visual de bom gosto, Oz, Mágico e Poderoso é uma homenagem inocente, dócil e inofensiva, mas é pedir demais para usar estes argumentos em defesa do que o filme verdadeiramente é: um belíssimo e decepcionante vácuo. (**)
OZ, MÁGICO E PODEROSO (Oz The Great and Powerful) EUA, 2013
Direção: Sam Raimi
Roteiro: Mitchell Kapner e David Lindsay-Abaire
Elenco: James Franco, Michelle Williams, Mila Kunis, Rachel Weisz, Zach Braff, Bill Cobbs, Joey King, Tony Cox e Bruce Campbell
Há uma força impetuosa e, digamos, “estranha” que move a narrativa de Indomável Sonhadora adiante. O vigor característico do filme não tem muita ligação com incômodos gerados ou aspectos brutais da história; é algo “enraizado” no perfil da obra, uma curiosa e peculiar forma de expressão que a torna ainda mais atrativa. Claro que a trama poderia ser desenvolvida baseada em fórmulas e técnicas convencionais (início, meio e fim), mas provavelmente a fúria e a veemência de sua natureza seriam anuladas se o roteiro trilhasse caminhos mais “fáceis”. Particularmente, não considero muito correto classificar o filme como um exercício de estilo, já que o diretor Benh Zeitlin se desvincula de quaisquer recursos ou artifícios cuja intenção seja surpreender o público, preferindo rodar o seu filme “na raça” com uma câmera hiper-realista e em estado de ebulição. E é principalmente por conta do tratamento diferenciado e da linguagem explorada que Indomável Sonhadora se estabelece como um projeto tão inspirador.
O script coescrito por Zeitlin e Lucy Alibar, autora da peça teatral o qual o filme é baseado, retrata pai e filha moradores de uma comunidade miserável e isolada às margens de um rio, no Estado de Louisiana. A história é narrada pela protagonista Hushpuppy (Wallis), uma garotinha de 6 anos, com a imaginação fértil a ponto de filosofar sobre o fim de um mundo que nunca conheceu, já que seu pai, Wink (Henry), a proíbe de conhecer a perversidade do “mundo seco”. Ambos vivem em um vilarejo – apelidado de “Banheira” – com outros “filhos da terra”, pessoas despreocupadas com o amanhã e que vivem o agora intensamente. Todos estão cientes da chegada de uma iminente tempestade que vai alagar o território que ocupam. Alguns deles mudam de endereço, outros resistem em ficar no lugar que sempre chamaram de seu. Com a saúde debilitada, o pai da menina a cria de maneira severa, e nesse ambiente precário, Hushpuppy irá aprende valiosas lições de sobrevivência.
Pode-se dividir o enredo de Indomável Sonhadora em três variantes: a cruel realidade que assola os habitantes da “Banheira”, o relacionamento instável entre pai e filha e a fábula criada pela garotinha que a leva a concluir o atual estado das coisas. Todos esses elementos casados em um roteiro excepcional por gerenciar com sutileza e simplicidade os desdobramentos da história. Somente a perseverança das pessoas que convivem em um cenário desfavorável e que lutam para se tornarem visíveis aos olhos do Estado já renderia uma discussão interessante sobre os agentes marginalizados da sociedade. O espectador se sensibiliza com o espírito de comunidade que expira do local, desde os ensinamentos repassados (“vocês devem aprender a cuidar dos que são menores que vocês”) até o raciocínio de Hushpuppy em considerar todos os seres uma parte importante para se formar uma unidade (“se uma peça quebrar, por menor que ela seja, o universo inteiro se quebrará”).
No entanto, sem ignorar a visão macro da situação, a película opta por enfocar a educação selvagem que Wink repassa à filha: pescar com as mãos, não sentir afeto pelos animais que podem virar sua refeição, e nunca, sob hipótese alguma, derrubar uma lágrima. O que justifica a rigidez da figura paterna é o aproveitamento do pouco tempo que lhe resta de vida para tornar sua filha corajosamente apta a sobreviver em um mundo, que ele bem sabe, não joga a favor de sua tribo. É até chocante a cena em que um homem, na melhor das intenções, orienta a menina a quebrar um caranguejo com a faca, ao passo que o pai vê esse ato e se descontrola, obrigando a garota a quebrar o crustáceo com a força dos punhos. São personagens sábios em sua ignorância, e a devoção da pequenina para o seu pai – e o sentimento é recíproco, apesar da “compreensível” severidade – é afeto em estado bruto, um retrato comovente e repleto de ternura.
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Indicado a 4 Oscars, “Indomável Sonhadora” é uma fábula de realismo fantástico que mescla ternura e selvageriaPor fim, o roteiro é enriquecido com uma dose fascinante de realismo fantástico, um vislumbre criado na cabeça da pequena heroína de que tudo conspira para o momento em que a tormenta alcançar a “Banheira”. Com a alteração da natureza, criaturas pré-históricas (aurochs) que se assemelham a porcos gigantes irão despertar de suas sepulturas congeladas e vão novamente reinar o universo. O empenhado roteiro une essas três narrativas com harmonia, e o diretor Benh Zeitlin as aproveita para explorar ângulos e enquadramentos de beleza e significados ímpares, como o encontro de Hushpuppy com os aurochs ou os embates travados entre pai e filha, que, em sua parte final, substitui a agressão e violência por uma tocante – e incomum – demonstração de amor.
Produzido com orçamento muito abaixo do prospectado em Hollywood (US$ 1,8 mi), Indomável Sonhadora é um filme em que o diretor imprime a sua assinatura sem intervenção de produtoras. A liberdade é insinuada tanto pelas decisões narrativas, que muitas vezes se apropriam de ares contemplativos, como também o visual arrebatador, sem nenhuma filmagem em estúdios e tudo temperado com a maravilhosa e premiada fotografia texturizada do novato Ben Richardson, um “garoto” com menos de 30 anos. Aliás, todos envolvidos neste filme são muito jovens: Zeitlin tem apenas 29, o coeditor brasileiro Affonso Gonçalves – que já montou outros filmes estrangeiros como Inverno da Alma (2010), Deixe a Luz Acesa (2012) e a minissérie Mildred Pierce (2011) com Kate Winslet – tem 43 e a protagonista Quvenzhané Wallis tinha apenas 5 anos de idade quando encarnou a fofa Hushpuppy, quebrando o recorde da atriz mais nova indicada ao Oscar – Indomável Sonhadora ainda recebeu outras três indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Além disso, ganhou outros 59 prêmios, incluindo a Câmera de Ouro no Festival de Cannes, honraria concedida a um filme com diretor de primeira viagem.
Wallis é a bússola da produção. Sem se prender a técnicas de interpretação – algo humanamente impossível para uma garota de 5 anos –, a garota se mostra extremamente confortável diante das câmeras, com uma performance intuitiva e caprichada em improvisos. Obviamente, houve muitas contribuições externas e técnicas que a ajudaram neste processo, como as instruções da direção, a montagem e até o apoio da mãe da pequena, que acompanhou todas as filmagens. Entretanto, é covardia lhe negar os méritos por conta disso: um desempenho convincente e espontâneo de forma que muitos atores experientes até hoje não conseguem reproduzir. Outro destaque do elenco é o também estreante Dwight Henry, um coadjuvante que dá todo o respaldo necessário para a personagem central e ainda consegue brilhar em momentos isolados.
Embalado em uma trilha sonora dócil que não poderia ser mais apaixonante, Indomável Sonhadora é um projeto muito próximo a Onde Vivem os Monstros (2009), de Spike Jonze: uma obra coerente, intimista, poética e discretamente metafórica, que através do olhar atento e a imaginação de uma criança de pouca instrução e experiências, o espectador passa a compreender todo o cenário ao redor e os problemas comuns daquele espaço. Filme mágico, encantador e indomável como indica o título. (*****)
INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of the Southern Wild) EUA, 2012
Direção: Benh Zeitlin
Roteiro: Lucy Alibar e Benh Zeitlin
Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Lowell Landes, Pamela Harper, Gina Montana e Amber Henry