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Quinta-feira, 17 de maio de 2012

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05MAR

O homem que mudou a investigação criminal

Palavras-chave: canalhices suavizadas; FBI; maquiagem de látex; polícia moderna


Um filme de duração comum não seria suficiente para contar a história de J. Edgar Hoover, o famoso criador do FBI, morto em 1972, que se manteve na gestão do departamento de investigação por longevos 48 anos.

Figura histórica bastante emblemática e metódica, Hoover era um workaholic que dedicou sua vida a favor de modernizar o esquema de ação da polícia norte-americana, introduzindo o método das impressões digitais na identificação de criminosos – o que seria do CSI sem ele, hein? –, além do perfil científico aos estudos de caso. Como nem tudo são flores, envolveu-se em escândalos injustificáveis, criou dossiês difamando diversos políticos – documentos que vieram a reconhecimento público depois de sua morte –, e era um legítimo conservador republicano cego pelas próprias ideologias. Racista e homofóbico, trocou farpas com o proeminente líder da causa dos negros, Martin Luther King; capturou assaltantes de bancos que se proliferaram na década de 1930; e era simpatizante do Terror Vermelho, a infame caça aos comunistas.

Esses são alguns fatos e suspeitas que acompanharam a carreira do famigerado diretor do FBI que, por sua vez, não são evidenciados em “J. Edgar”. Como é humanamente impossível condensar de forma consistente todas essas e várias outras informações em pouco mais de 120 minutos, o cineasta Clint Eastwood e o roteirista Dustin Lance Black selecionaram os episódios envolvendo o sujeito que provavelmente julgavam mais importantes. Embora o filme faça poucas concessões à imagem de Hoover, é notável que haja complacência na construção do personagem, e este é um dos principais venenos quando alguém se atreve a fazer uma cinebiografia. Entretanto, o roteiro mesmo sendo maquiado encontra espaço para evidenciar as fragilidades e limitações de J. Edgar, o que é bastante compensador, considerando que o cinebiografado apoiou causas que os Estados Unidos se envergonham até hoje – ou deveriam.


Divulgação

Divulgação / Em “J. Edgar”, Clint Eastwood omite alguns podres do famoso criador do FBI, mas encontra outros meios de escancarar seu desvio de caráterEm “J. Edgar”, Clint Eastwood omite alguns podres do famoso criador do FBI, mas encontra outros meios de escancarar seu desvio de caráter

Adotando uma estrutura como a conferida no recente “Milk – A Voz da Igualdade” (2008) – também roteirizado por Black – em que o protagonista conta as suas memórias e o presente é intercalado por flashbacks, o filme também se vale dessa técnica para manipular o tempo e abranger o máximo a sua narrativa com os depoimentos de J. Edgar. Em suma, testemunhamos a origem de seu interesse pelo mundo da investigação e a ascensão no Bureau, os ataques dos bolcheviques e todo o raciocínio de deportação dos conterrâneos avessos ao regime do país, o sequestro do bebê Lindberg, a sua devoção à figura materna e o suposto envolvimento homoafetivo com seu braço direito de gabinete, Clyde Tolson. O que era para ser um projeto disperso, visto a quantidade de enfoques dramatúrgicos, felizmente, Black é sagaz em amarrar as variações da história com clareza e de forma orgânica, sem deixar o espectador perdido ou confuso.

No entanto, como esperado, “J. Edgar” parece interminável. Muito mais longo do que deveria ser, por vezes, o filme adota um ritmo arrastado que desafina a orquestra, tornando algumas cenas mortas e desinteressantes. Engraçado que nos momentos que permitem adquirir um tom mais lento, até pela dramaticidade da cena, Eastwood puxa a charrete e o aproveitamento da situação específica soa incompleto para o espectador. Como exemplo, a crise amorosa entre Hoover e Tolson e a despedida de sua mãe, interpretada por uma Judi Dench totalmente desperdiçada.

Utilizada sem muito proveito também é a sempre confiável Naomi Watts, que, como a secretária pessoal de J. Edgar, não vai muito além de uma mera distração no longa. Armie Hammer (os gêmeos de “A Rede Social”) consegue um pouco mais de holofotes, mas seu visível despreparo como o interesse romântico do protagonista deixa o caminho livre para Leonardo DiCaprio mostrar seu competente desempenho. Agora, sejamos francos, nem Marlon Brando sairia ileso se usasse quilos de massa corrida no rosto e ficasse assim. Ou assim. Ou ainda assim. O desserviço do maquiador Sian Grigg e equipe, adeptos do padrão “As Branquelas” de qualidade, prejudica sem piedade as atuações ao criar próteses medonhas que inibem as expressões faciais de todo o elenco. Ao menos, a diversão fica por imaginar J. Edgar e seu parceiro cantando Vanessa Carlton.

Ainda prejudicado pela fotografia escura sem propósito assinada por Tom Stern, “J. Edgar”, no fim das contas, é o melhor filme de Clint Eastwood nos últimos anos. Apesar dos defeitos, o roteiro reserva surpresas positivas, DiCaprio se sai relativamente incólume da maquiagem ultrajante e o seguro dinamismo entre o ator e Eastwood criam um estudo de personagem satisfatório, fazendo com que o espectador compreenda as motivações do protagonista e talvez sinta até compaixão por um homem orgulhoso e de índole tão reprovável. (***)


J. EDGAR (Idem) EUA, 2011
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Dustin Lance Black
Elenco: Leonardo DiCaprio, Armie Hammer, Naomi Watts, Judi Dench, Geoff Pierson, Jeffrey Donovan e Josh Lucas


29FEV

O cinema contra o tempo

Palavras-chave: chave de coração; “consertar as coisas”; George Méliès; homenagem à Sétima Arte; vencedor de 5 Oscars


Se analisada a ordem sequencial da filmografia do touro indomável Martin Scorsese, é de se especular se o diretor intencionava de alguma forma embarcar em um projeto que sempre fosse diferente do seu filme anterior. Digo isso porque em mais de 40 anos dedicados ao cinema, Scorsese comandou, sem seguir uma cronologia, comédias, suspenses, romance de época, musicais, documentários, épicos político-religiosos, dramas comoventes, cinebiografias, dentre outros tipos e gêneros. Não sei se essa hipótese é validada ou eram realmente as circunstâncias da época, mas se o cineasta porventura quisesse que sua persona fosse desvinculada de alguma imagem e buscou essa dissociação na versatilidade de sua carreira... bom, creio eu que o nova-iorquino falhou nesse sentido. Isso porque o diretor praticamente é um mentor quando se trata do submundo do crime, e grandes filmes como “Caminhos Perigosos” (1973), “Taxi Driver” (1976), “Os Bons Companheiros” (1990), “Cassino” (1995) e “Os Infiltrados” (2006) não me deixam mentir.

Conhecido sobretudo pela violência retratada em suas obras – não há dúvidas de que Scorsese daria um brilhante estrategista mafioso –, eis que anunciam a sua curiosa incursão na temática infantil, logo após rubricar o aflitivo “Ilha do Medo” (2010). No entanto, mais do que uma simples produção mirando o público jovem, “A Invenção de Hugo Cabret” é uma belíssima carta de agradecimento à Sétima Arte. Uma pena que até chegar efetivamente na homenagem, o espectador tenha que acompanhar a trama prolixa e desinteressante do personagem-título.

Inspirado no livro homônimo de Brian Selznick, o roteiro de John Logan – que trabalhou com Scorsese em “O Aviador” (2004) – é ambientado na década de 1930, em Paris, onde vive Hugo Cabret, um órfão que mora clandestinamente nas instalações internas do terminal ferroviário central da cidade. Hugo ajudava o tio a consertar os relógios do local, mas após a morte do parente, o garoto passou a sobreviver de pequenos furtos na estação. Certo dia, ele é flagrado no ato e uma caderneta cheia de rabiscos que pertencia ao seu pai lhe é tomada por um misterioso comerciante (Kingsley) como garantia de que ele iria ajudá-lo a reaver os produtos roubados. Para recuperar as anotações do pai inventor, Hugo vai contar com a ajuda da sonhadora Isabelle (Moretz), e juntos vão desvendar segredos e protagonizar uma experiência mágica.


Divulgação

Divulgação / A embalagem de “A Invenção de Hugo Cabret” é moderna e tecnológica, mas o coração do filme pertence aos primórdios da Sétima ArteA embalagem de “A Invenção de Hugo Cabret” é moderna e tecnológica, mas o coração do filme pertence aos primórdios da Sétima Arte

Cinéfilo assumido e preocupado em preservar a memória do cinema – o clássico brasileiro “Limite” (1930), de Mário Peixoto, é uma das obras restauradas pela sua fundação –, Scorsese faz de Hugo Cabret o seu alter-ego mirim – ambos “consertam as coisas” – e presta um apaixonado tributo ao cinema e um agradecimento pessoal pelas emoções proporcionadas em todos esses anos. O diretor demonstra sua gratidão retratando os primórdios da imagem em movimento, com direito à exibição de trechos dos primeiros filmes da História, como “A Chegada do Trem na Estação” e “A Saída dos Operários da Fábrica Lumière”, ambos de 1895 e de autoria dos Irmãos Lumière, tombados como os inventores do cinema.

Mas é na figura do genial precursor conhecido por capturar os sonhos nos projetos que criava, George Mèliès, que “A Invenção de Hugo Cabret” dedica quase integralmente a sua homenagem. E não por menos. Interpretado com incrível semelhança por Ben Kingsley, o famoso ilusionista fez centenas de produções envolvendo mundos fantasiosos e efeitos especiais artesanais com a manipulação da imagem, o que era esplêndido para a época. No filme, encontramos um Méliès frustrado artisticamente devido à efemeridade de seu sucesso, mas o amor incondicional pelo cinema logo é reascendido quando Hugo e Isabelle levam a ele o encanto da aventura em celulóide, rendendo o melhor momento da projeção: um excelente flashback que envolve o processo de produção de alguns de seus filmes, entre eles, a obra-prima “Viagem à Lua” (1902), “A Sereia“ (1904) e “O Eclipse” (1907).

E com isso, Scorsese comprova o poder eterno do cinema, da arte em geral, da capacidade de contar histórias, de se emocionar. O próprio fato de Hugo ser um relojoeiro e viver atrasando os ponteiros do relógio da estação de trem – onde foi filmado o primeiro filme, veja bem – é uma metáfora de que o cinema não envelhece, não tem data de validade, corre contra o tempo. Um filme que foi feito há um século pode, porque não, causar reações sinceras no espectador do tumultuoso século XXI? Apresentando um 3D excepcional, a embalagem é moderna, tecnológica, mas o coração de “A Invenção de Hugo Cabret” pertence ao passado rústico, à gênese de tudo, ao berço da Sétima Arte. Apesar da historinha chatinha e pouco empolgante, por cenas que vou levar sempre comigo, sinto-me no dever de dizer: obrigado, Scorsese. (****)


A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo) EUA, 2011
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: John Logan
Elenco: Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Helen McCrory, Emily Mortimer, Jude Law e Ray Winstone

24FEV

E o Oscar deveria ir para...


Neste domingo (26), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood abre as portas do suntuoso Kodak Theater, em Los Angeles, para receber artistas e profissionais da área na 84ª edição do Oscar, a principal e mais longeva premiação do cinema. As cédulas de votação já foram enviadas e os votos contabilizados, agora é hora de finalmente conhecer quem será agraciado com a cobiçada estatueta dourada.

Nos parágrafos seguintes, o Pós-Première comenta os nomeados em cada categoria e chuta quais serão os vencedores da noite.


MELHOR FILME


 /

* O Artista
* A Árvore da Vida
* Cavalo de Guerra
* Os Descendentes
* Histórias Cruzadas
* O Homem que Mudou o Jogo
* A Invenção de Hugo Cabret
* Meia-noite em Paris
* Tão Forte e Tão Perto

Em recente pesquisa encomendada pelo jornal Los Angeles Times analisando os quase 6 mil votantes da Academia, foi traçado o perfil padrão dos eleitores: homem, branco, sexagenário, provavelmente aposentado e sem envolvimento direto com o cinema por, no mínimo, dois anos. Em outras palavras, é como se o seu avô, caro leitor, determinasse os indicados e vencedores do Oscar. Esses dados são preocupantes – 77% são homens e 79% têm mais de 50 anos –, visto que o conservadorismo e a renúncia ao moderno, ao choque são imperantes, pois observando os indicados da categoria Melhor Filme, a conclusão que chego é que os membros simplesmente gostam de se sentirem confortáveis durante a sessão de um filme, o que nem sempre significa que a obra em questão é artisticamente relevante. Esse pensamento involuído justifica a pieguice de alguns indicados mal passados na categoria principal. Ainda bem que temos “O Artista”, “A Árvore da Vida”, “Meia-noite em Paris” e “A Invenção de Hugo Cabret” para dar alguma dignidade, porque os demais concorrentes vão do medíocre ao mediano. “Tão Forte e Tão Perto”? Sério mesmo, Oscar?! Lamentável...

Vai vencer: O Artista

Votaria em: O Artista

Esqueceram de mim: como deu para perceber, eu repaginaria a categoria integralmente, deixando talvez só um ou dois gatos pingados. Nem requer muito esforço apontar filmes lançados no ano passado que sejam melhores que esses daí.


MELHOR DIRETOR


 /

* Terrence Malick (A Árvore da Vida)
* Woody Allen (Meia-noite em Paris)
* Alexander Payne (Os Descendentes)
* Michel Hazanavicius (O Artista)
* Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret)

Categoria de peso e relativamente imprevisível. São todos cineastas conceituados, mas neste ano não defendem suas melhores obras, não. O favoritismo de “O Artista” posiciona o pouco conhecido Michel Hazanavicius como o mais requisitado, mas a briga é de gigantes e por mais que os outros já tenham suas estatuetas na estante, parece que vieram famintos para mais uma, sobretudo Scorsese, uma ameaça vermelha ao francês. Se qualquer um dos outros triunfar, será uma surpresa.

Vai vencer: Michel Hazanavicius

Votaria em: Terrence Malick

Esqueceram de mim: Nicolas Winding Refn (Drive)


MELHOR ATOR


 /

* Brad Pitt (O Homem que Mudou o Jogo)
* Jean Dujardin (O Artista)
* George Clooney (Os Descendentes)
* Gary Oldman (O Espião que Sabia Demais)
* Demián Bichir (Uma Vida Melhor)

A indicação do mexicano Demián Bichir por um filme que poucos assistiram foi surpreendente. Ademais, a atuação do ator está na medida e creio que a boa índole do personagem impulsionou sua indicação mais do que a performance propriamente dita. Divago. Sua indicação já é mais do que uma vitória. A disputa fica mesmo entre Clooney, que faz bem o dever de casa; Brad Pitt, em um dos seus melhores trabalhos, e o francês Jean Dujardin, que abocanhou prêmios em Cannes, no SAG e no Globo de Ouro. É inacreditável como até então Gary Oldman havia passado despercebido do radar do Oscar. Ainda bem que corrigiram o erro agora e reconheceram seu desempenho matemático e brilhante em “O Espião que Sabia Demais”. Oldman é renomado e querido, pode estragar a festa dos mais jovens – o que seria ótimo, mas improvável.

Vai vencer: Jean Dujardin

Votaria em: Jean Dujardin

Esqueceram de mim: Michael Shannon (O Abrigo)


MELHOR ATRIZ


 /

* Rooney Mara (Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres)
* Viola Davis (Histórias Cruzadas)
* Michelle Williams (Sete Dias com Marilyn)
* Glenn Close (Albert Nobbs)
* Meryl Streep (A Dama de Ferro)

Presumo que Meryl Streep vai para a cerimônia deste ano trajando jeans e moletom. Essa é a 17ª indicação da atriz, que já papou 2 Oscars quando, na verdade, merecia mais. Indiscutivelmente, ela tem a melhor performance dentre as cinco. Como Margaret Thatcher, faz milagres com a desgraça que é “A Dama de Ferro”, filme pedestre, bagunçado, medonho. Esse ano, ela divide os votos com Michelle Williams no papel do mito Marilyn Monroe e com a empregada doméstica interpretada com intensidade por Viola Davis. Rooney Mara arrebenta, mas ainda cheira a leite, e Glenn Close voltou dos mortos para roubar a vaga de outras atrizes muito mais merecedoras. Eu daria o Oscar para Streep, sem dúvidas, até porque a mulher já perdeu até para Sandra Bullock, poxa...

Vai vencer: Meryl Streep

Votaria em: Meryl Streep

Esqueceram de mim: Olivia Colman (Tiranossauro)


MELHOR ATOR COADJUVANTE


 /

* Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
* Kenneth Branagh (Sete Dias com Marilyn)
* Jonah Hill (O Homem que Mudou o Jogo)
* Nick Nolte (Guerreiro)
* Max von Sydow (Tão Forte e Tão Perto)

A briga aqui é de titãs: Christopher Plummer X Max von Sydow. Entretanto, se considerarmos a atuação que defendem esse ano, nenhum mereceria a vitória, de fato. Caso vierem a vencer, será um Oscar Honorário disfarçado, mais pelo reconhecimento da carreira desses dois dinossauros do cinema – 82 anos cada e dezenas de clássicos na filmografia. Os meus favoritos, Branagh e Nolte, têm poucas chances de levarem o prêmio. O primeiro interpreta Sir Laurence Olivier e personifica com ironia a prepotência do lendário ator, já o segundo se entrega em uma atuação comovente de um pai arrependido por não ter lutado pela união da família no tocante “Guerreiro”. É um retorno triunfal de Nolte, atuação contida e dilacerante. Já Jonah Hill só foi indicado mesmo para fazer peso, com o perdão do trocadilho.

Vai vencer: Christopher Plummer

Votaria em: Nick Nolte

Esqueceram de mim: Christoph Waltz (Deus da Carnificina)


MELHOR ATRIZ COADJUVANTE


 /

* Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
* Melissa McCarthy (Missão Madrinha de Casamento)
* Bérénice Bejo (O Artista)
* Janet McTeer (Albert Nobbs)
* Jessica Chastain (Histórias Cruzadas)

Octavia Spencer é a favorita absoluta da categoria, mas em minha modesta opinião, é a menos merecedora dentre as cinco. Em “Histórias Cruzadas”, ela reproduz uma caricatura da típica mulher negra dos anos 1960, com aquele perfil cômico da dona-de-casa esquentada, isso sem contar suas expressões matematicamente calculadas e precipitadas. É uma atuação aceitável, no entanto, não para vencer um Oscar. As demais têm poucas chances de ganhar, porém a paixonite da Academia por “O Artista” coloca a atriz argentina Bérénice Bejo como uma rival à altura. Para as outras três, espero que se divirtam na festa.

Vai vencer: Octavia Spencer

Votaria em: Melissa McCarthy

Esqueceram de mim: na verdade, lembraram dela, mas a nomearam pelo filme errado. Jessica Chastain merecia ser indicada por “O Abrigo”.


MELHOR ROTEIRO ORIGINAL


 / "Missão Madrinha de Casamento" recebeu 2 indicações ao Oscar


* O Artista
* Margin Call – O Dia Antes do Fim
* Meia-noite em Paris
* Missão Madrinha de Casamento
* A Separação

Essa é a melhor categoria do Oscar 2012. Ótimos indicados e fugiu um pouco da previsibilidade que penumbra a premiação. “Missão Madrinha de Casamento” é uma das comédias mais inspiradas dos últimos anos, daquelas que transitam do pastelão ao genial em um estalar de dedos. “Margin Call” é um filme urgente e cerebral sobre o dia que antecedeu o estouro da crise financeira de 2008, dispõe de roteiro afiado, bem estruturado e com diálogos inflamáveis. “Meia-noite em Paris” é a carta de amor datilografa por Woody Allen à Cidade Luz, enquanto “O Artista” celebra o cinema de outrora, puro, simples e arrebatador. “A Separação” é um estudo absorto da conduta humana em momentos adversos. Todos diferentes entre si e excepcionais à sua maneira. Qualquer um que levar, estará em boas mãos.

Vai vencer: Meia-noite em Paris

Votaria em: A Separação

Esqueceram de mim: Ganhar ou Ganhar – A Vida é um Jogo


MELHOR ROTEIRO ADAPTADO


 / Gary Oldman protagoniza o excelente Gary Oldman protagoniza o excelente "O Espião que Sabia Demais"


* Os Descendentes
* O Espião que Sabia Demais
* O Homem que Mudou o Jogo
* A Invenção de Hugo Cabret
* Tudo pelo Poder

“A Invenção de Hugo Cabret” é uma bela homenagem ao cinema, porém a narrativa infantil carece de sentimento, característica que tem de sobra no roteiro de “Os Descendentes” e passa longe da trama complexa e calculista de “O Espião que Sabia Demais”. “O Homem que Mudou o Jogo” aborda um tema batido e o desenvolve de maneira até interessante, enquanto “Tudo pelo Poder” disserta sobre a dignidade e joga as merdas da política no ventilador. Categoria balanceada e não tão previsível assim. Pode haver surpresas.

Vai vencer: O Homem que Mudou o Jogo

Votaria em: Tudo pelo Poder

Esqueceram de mim: Submarine


MELHOR ANIMAÇÃO


 / Cena da animação hispano-britânica Cena da animação hispano-britânica "Chico & Rita"


* Chico & Rita
* Gato de Botas
* Um Gato em Paris
* Kung Fu Panda 2
* Rango

A Pixar capotou com “Carros 2” e a concorrente Dreamworks Animation, tirando vantagem da situação, emplacou dois indicados esse ano. Permitam-me dizer, as duas animações mais fraquinhas da categoria: “Gato de Botas” e “Kung Fu Panda 2”. Não há chance alguma de vencerem, se o bom senso reinar. Mais surpreendente que isso foi os votantes terem encontrado espaço para “Um Gato em Paris”, filme francês com gráfico convencional e aconchegante, e o caliente “Chico & Rita”, produção hispano-britânica enamorada pela música e clima cubano. Sem “As Aventuras de Tintim” na brincadeira, “Rango” tem passe livre para abocanhar a estatueta no próximo domingo. Confesso que assim fica até sem graça.

Vai vencer: Rango

Votaria em: Rango

Esqueceram de mim: Operação Presente


MELHOR FILME ESTRANGEIRO


 / Cena de Cena de "A Separação", representante iraniano no Oscar 2012


* Bullhead (Bélgica)
* Nota de Rodapé (Israel)
* In Darkness (Polônia)
* Monsieur Lahzar (Canadá)
* A Separação (Irã)

Esse é um território que tenho pouco a dizer, pois assisti a apenas dois dos concorrentes: “A Separação”, que é um dos melhores filmes do ano, e o representante belga “Bullhead”, um thriller violento e bastante incômodo. Como atração anual, o Oscar sempre procura indicar um filme que examina o Holocausto sob a ótica dos judeus. Esse ano, viajaram até à Polônia para encontrar o tal filme. “Nota de Rodapé” retrata a rivalidade de pai e filho intelectuais depois que um deles foi premiado nas costas do outro, e “Monsieur Lahzar” lida com educação, crianças e diferenças étnicas, tudo o que o Oscar adora. Se fosse ambientado na Segunda Guerra, ganhava fácil. Acho difícil algum destes ser superior ao iraniano, mas categoria Melhor Filme Estrangeiro sempre reserva surpresas, algumas desagradáveis. Veremos o que nos aguarda no domingo.

Vai vencer: A Separação

Votaria em: A Separação

Esqueceram de mim: Dos 63 países que se inscreveram ao Oscar, vi poucos filmes, mas cito duas obras extraordinárias: o húngaro “O Cavalo de Turim”, de Béla Tarr, e o nosso representante “Tropa de Elite 2”, um dos melhores filmes da nossa cinematografia.


MELHOR FOTOGRAFIA


 / Cena de Cena de "A Árvore da Vida", que recebeu 3 indicações ao Oscar


* O Artista
* A Árvore da Vida
* Cavalo de Guerra
* A Invenção de Hugo Cabret
* Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Já passou da hora de Emmanuel Lubezki, diretor de fotografia de “A Árvore da Vida”, levar o seu Oscar. Foram 5 indicações e nenhuma se converteu em prêmio até então. No filme de Malick, a luz é personagem primordial e Lubezki faz de alguns takes verdadeiras obras de arte. Além do efeito contemplativo, a iluminação enriquece a trama com beleza e uma plasticidade evocativa, sensorial, única. Merecem destaque o clima noir punk de “Millenium” e o trabalho esteticamente irretocável de Janusz Kaminski em “Cavalo de Guerra”.

Vai vencer: A Árvore da Vida

Votaria em: A Árvore da Vida

Esqueceram de mim: Jane Eyre


MELHOR EDIÇÃO


 / "O Homem que Mudou o Jogo" faz analogia do baseball com a vida


* O Artista
* Os Descendentes
* O Homem que Mudou o Jogo
* A Invenção de Hugo Cabret
* Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Categoria fraudulenta. Só são justificáveis as indicações de “O Homem que Mudou o Jogo” e “Millennium”. Os demais trabalhos de montagem são apenas corretos, mas como no histórico da Academia, o prêmio de Melhor Edição sempre acompanha os vencedores em Melhor Filme, não é de se espantar a presença dos três "queridinhos do ano" por aqui. Vou pegar carona na maré do favoritismo...

Vai vencer: O Artista

Votaria em: Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Esqueceram de mim: Guerreiro


MELHOR DIREÇÃO DE ARTE


 / Presente em 11 categorias, Presente em 11 categorias, "A Invenção de Hugo Cabret" é o recordista de indicações do Oscar 2012


* O Artista
* Cavalo de Guerra
* Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II
* A Invenção de Hugo Cabret
* Meia-noite em Paris

Coincidentemente, com exceção do universo fantasioso de “Harry Potter 7.2”, os demais filmes indicados a Direção de Arte são ambientados nas duas primeiras décadas do século XX. A recriação de Paris, Hollywood em sua época dourada e a Europa Oriental aos frangalhos por conta da Primeira Guerra Mundial encantou a comissão dessa categoria e, de fato, são trabalhos de encher os olhos. A riqueza de detalhes e a ode à Sétima Arte de “Hugo Cabret”, no entanto, devem ter ficado durante mais tempo na cabeça dos votantes. Se a nostalgia de “O Artista” não contagiar os mais saudosistas, creio que o design de produção de "Hugo" leva essa.

Vai vencer: A Invenção de Hugo Cabret

Votaria em: A Invenção de Hugo Cabret

Esqueceram de mim: Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras


MELHOR FIGURINO


Alex J. Berliner

Alex J. Berliner / Figurinos do filme Figurinos do filme "Jane Eyre" em exposição


* Anônimo
* O Artista
* A Invenção de Hugo Cabret
* Jane Eyre
* W.E. – O Romance do Século

Aqui a história se repete como em Direção de Arte: a preferência é por filmes de época com luxuosos vestidos, principalmente os usados pela monarquia inglesa. A Academia e sua tara eterna pelo belo, pelo o que encanta, pela nobreza, pela extravagância. Certamente, são vestimentas trabalhosas, mas construir é uma tarefa tão complicada quanto desconstruir. O figurino do personagem é comunicação, é sentimento, é sua alma externalizada. A brilhante coleção de Michael O’Connor para “Jane Eyre”, além de ser exuberante pela reconstituição de seu período, é um meio pelo qual podemos estudar os personagens do filme. Por isso merece a honraria.

Vai vencer: Jane Eyre

Votaria em: Jane Eyre

Esqueceram de mim: Potiche


MELHOR MAQUIAGEM


 /

* Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II
* Albert Nobbs
* A Dama de Ferro

Uma estatueta aqui para a saga do bruxo adolescente poderia ser a despedida do Oscar, já que a premiação nunca concedeu nenhuma estatueta aos filmes da série. No entanto, o trabalho de maquiagem de “Harry Potter 7.2” não oferece nada de novidade em relação aos anteriores, que também nunca receberam uma menção nessa categoria. A conversão de Glenn Close em homem no papel do personagem-título de “Albert Nobbs” é impressionante, mas não tanto quanto a transformação de Meryl Streep em “A Dama de Ferro”, sobretudo as próteses quando a ex-primeira-ministra está com idade avançada. Ao lado da impecável atuação de Streep, é uma das poucas coisas que prestam neste filme.

Vai vencer: A Dama de Ferro

Votaria em: A Dama de Ferro

Esqueceram de Mim: Um Método Perigoso


MELHOR TRILHA SONORA

* O Artista
* As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne
* Cavalo de Guerra
* O Espião que Sabia Demais
* A Invenção de Hugo Cabret

Desafio o espectador a assistir a “O Artista” e sair da sessão sem cantarolar a trilha sonora do filme, composta lindamente pelo francês Ludovic Bource. Obra de mestre, Bource recria todos os sons e acordes das típicas composições que acompanhavam as histórias do cinema mudo. É um belo trabalho, harmônico e adorável, um espetáculo à parte. Do outro lado da trincheira, John Williams embarca na cafonice de Spielberg e exagera a dose em “Cavalo de Guerra”, já em “Tintim”, a trilha onipresente é pulsante e sensacional, tal como a de Alberto Iglesias para “O Espião que Sabia Demais” e as melodias abafadas que torna o clima do filme mais denso e frequentemente elegante. Bela categoria, mas muitos outros trabalhos, como o de “Millennium”, mereciam uma vaga.

Vai vencer: O Artista

Votaria em: O Artista

Esqueceram de mim: se John Williams teve indicação dupla, por que não o espanhol Alberto Iglesias por “A Pele que Habito”?


MELHOR MIXAGEM DE SOM

* Cavalo de Guerra
* O Homem que Mudou o Jogo
* A Invenção de Hugo Cabret
* Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
* Transformers – O Lado Oculto da Lua

O padrão da Academia é premiar os mais barulhentos, mas o design sonoro de “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” é fora de série. Os diálogos bem definidos e encorpados sonoramente – um filme majoritariamente concentrado em conversas – em combinação perfeita com a riqueza da trilha sonora bem encaixada resultam em um trabalho soberbo. “Cavalo de Guerra” tem grandes chances de se consagrar, o que não seria injusto de forma alguma. Mas lembramos que foi o filme do Scorsese que venceu o sindicato. Aí a situação fica mais apertada...

Vai vencer: A Invenção de Hugo Cabret

Votaria em: Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Esqueceram de mim: Drive


MELHOR EDIÇÃO DE SOM

* Cavalo de Guerra
* Drive
* A Invenção de Hugo Cabret
* Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
* Transformers – O Lado Oculto da Lua

A primeira e única indicação de “Drive” ao Oscar. O trabalho de “Transformers” nesse departamento é de ensurdecer qualquer um, é uma captação de áudio complexa e louvável, mas creio que tudo conspira ao filme do Spielberg se consagrar por aqui.

Vai vencer: Cavalo de Guerra

Votaria em: Drive

Esqueceram de mim: Super 8


MELHORES EFEITOS VISUAIS

* Gigantes de Aço
* Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II
* A Invenção de Hugo Cabret
* Planeta dos Macacos: A Origem
* Transformers – O Lado Oculto da Lua

Maior marmelada do Oscar. Basta apertar o play no vídeo acima para saber porque “Planeta dos Macacos – A Origem” merece a estatueta.

Vai vencer: Planeta dos Macacos – A Origem

Votaria em: Planeta dos Macacos – A Origem

Esqueceram de mim: Missão: Impossível IV – Protocolo Fantasma


MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

* “Man or Muppet” (Os Muppets)
* “Real in Rio” (Rio)

Já passou da hora do Oscar extinguir a categoria Canção Original. Não digo nem pelo péssimo histórico, mas porque esse campo é vítima de tantas restrições que seria mais conveniente bani-la da premiação de uma vez. Olha a piada desse ano! “Os Muppets” e “Rio” tinham músicas candidatas muito melhores, tiveram que justamente escolher as piores de cada filme? “Bla bla bla Carlinhos Brown bla bla bla”... e daí? E por que diabos dois indicados, sendo que havia mais de 50 músicas para serem escolhidas? Sinceramente, eu não sentirei falta...

Vai vencer: Os Muppets

Votaria em: Nulo.

Esqueceram de mim: Todas, menos essas duas.


Bom Oscar a todos! E que justiça seja feita!

16FEV

De onde viemos e para onde vamos

Palavras-chave: família; laços de sangue; natureza (humana); raízes firmadas


Há uma cena de “Os Descendentes” em que o protagonista interpretado por George Clooney, filosofando acerca do transtorno emocional sob o próprio teto, compara o núcleo familiar a um arquipélago: aos poucos, os membros da família se afastam e quando se é dado conta, aquelas pessoas paradoxalmente tão próximas parecem estar a léguas de distância. Essa sensação percorre grande parte da trama e acomete lares diferentes, pois como o personagem deixa claro, “ninguém está imune à vida”, nem mesmo os moradores do Hawaii, o paraíso na Terra onde é desenvolvida a história do longa.

Talhado em uma estrutura sólida e bem acabada, "Os Descendentes" aborda de forma sensível e com maturidade temas como o perdão, o luto, as origens, a identidade de cada um de nós. E se o filme é frequentemente debilitado pelo formato convencional, ao menos convida o espectador a refletir sem recorrer a métodos panfletários.

Escrito a seis mãos, o roteiro remonta duas situações conflitantes enfrentadas simultaneamente por Matt King (Clooney): a primeira é lidar equilibradamente com a notícia de que a esposa em coma, vítima de um acidente no mar, o traía com um corretor de imóveis; o segundo problema é definir junto aos inúmeros tios, primos e irmãos o futuro dos 25 acres de terra que lhes foram deixados como herança pelos seus ancestrais. Alguns da família aceitam em privatizar a propriedade e transformá-la em um resort, outros preferem permanecer intacta a paradisíaca paisagem natural (foto abaixo). Acompanhando das filhas problemáticas e do namorado de uma delas, Matt pega estrada para dar fim aos seus dilemas, mas a viagem se torna uma experiência de autodescoberta, uma aula que ele irá aprender muito mais de si do que esperava.


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Divulgação / “Os Descendentes” aborda  com maturidade temas como o perdão, o luto, as origens e a identidade de cada um de nós“Os Descendentes” aborda com maturidade temas como o perdão, o luto, as origens e a identidade de cada um de nós

Este é o tipo de produção que dificilmente irá desagradar algum espectador. É redondo, simpático, reserva uma parcela de cenas emocionantes, exibe um humor peculiar, é de fácil compreensão e digesto em sua totalidade. Por outro lado, não apresenta absolutamente nada de novo, reproduz o estereótipo das típicas famílias desestruturadas e, de brinde, o indivíduo que perdeu o chão devido a uma tragédia qualquer e tenta se restabelecer na vida. O problema aqui não reside na escolha de retratar esses elementos saturados no cinema, pois a vida é um clichê e eles existem, mas o diferencial está em como fazer isso. “Os Descendentes” se destaca pela honestidade e pela sutileza, mas seu tratamento óbvio e ausente de clímax acabam por minimizar suas potencialidades.

E essa constatação é um pouco frustrante quando lembramos que a obra tem a mão do cineasta Alexander Payne, sem dúvidas, um dos mais interessantes diretores norte-americanos contemporâneos. Dono de uma filmografia pequena, porém infalível – “Ruth em Questão” (1996), “Eleição” (1999), “As Confissões de Schimidt” (2002) e “Sideways – Entre Umas e Outras” (2004) –, Payne abdica da atipicidade, da ironia que sempre lhe fora marcante para projetar um filme afetivo, cômodo, sem grandes ousadias. O resultado é satisfatório, o feijão com arroz é nutritivo, mas não justifica, por exemplo, as 5 indicações que recebeu no Oscar.

Ou melhor, as 4 indicações (Melhor Filme, Diretor, Roteiro Adaptado e Edição), já que a quinta nomeação seria para a atuação de George Clooney, lembrando na categoria de Melhor Ator, e que aqui se encontra em um dos melhores momentos de sua carreira. Encarnando um sujeito vulnerável e pacífico, Clooney balanceia com delicadeza a confusão interna do personagem, que tenta lidar com o choque da revelação envolvendo a esposa, ao mesmo tempo em que se esforça ao máximo para se impor no lar que aparentemente nunca teve voz ativa. Outro destaque é a jovem estreante Shailene Woodley como a filha adolescente que, a rigor, despreza a família, mas se compadece do patriarca e vira sua melhor amiga no atual momento de embaraço.

Mas o que talvez seja o mais interessante de “Os Descendentes” é a sutil conexão estabelecida no filme de buscar certas respostas no passado, nas raízes, no âmago da genealogia, para resolver determinadas pendências morais do presente. Ressuscitar valores, princípios e tradições dos nossos antepassados para adaptá-los à geração atual, está aí uma preciosa sugestão para se delimitar nossas fronteiras, semear nosso território e tocar nossa vida adiante. (***)


OS DESCENDENTES (The Descendants) EUA, 2011
Direção: Alexander Payne
Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash
Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Matthew Lillard, Patricia Hastie, Judy Greer e Robert Forster

10FEV

Estrume épico

Palavras-chave: arame farpado; cavalgada; lágrimas por insistência; odisseia; pieguice a galope


O que leva o espectador às lágrimas na sala de cinema? É interessante analisar os efeitos e os estímulos da catarse, pois, dentre algumas teorias particulares, acredito que emocionar-se enquanto assiste a um filme não é sinônimo de aprovação e muitas pessoas confundem esse tipo de incidente. Envolvimento emocional com o receptor é o mínimo que uma obra, independente do gênero, deve conquistar. Se testemunhamos um personagem órfão, banguela, caolho e muambeiro, vítima de câncer pancreático se debatendo no leito de morte, vamos nos sensibilizar com facilidade, porém essa reação não significa necessariamente que o filme com esse indivíduo desgraçado seja assistível.

A mão carregada de um diretor em explorar a miséria de seus personagens ou escandalizar os seus sentimentos quase sempre irá arrancar lágrimas do público. É fato. Mas esse sentimentalismo barato é simplesmente rasteiro e desprezível, trata-se de uma armadilha emotiva infalível com o objetivo geralmente alcançado de fazer o espectador sair fungando da sala de exibição. É basicamente essa desonestidade que Steven Spielberg reproduz ao contar a odisseia de um equino que percorre desde um rancho acolhedor até às trincheiras da Primeira Guerra Mundial no sofredor e sofrível “Cavalo de Guerra”, a nova investida do cineasta para faturar mais um Oscar.

Baseado no romance de Michael Morpugo, a história do filme é realmente cativante, mas este é mais um daqueles casos em que roteiristas convertem uma bela premissa em um emaranhado de clichês, e o que era comovente acaba soando previsível, exagerado e cansativo. Escrito por Lee Hall e Richard Curtis, “Cavalo de Guerra” gira em torno de Joey, um cavalo vira-lata comprado em um leilão por uma família de camponeses. Na esperança de arar a propriedade e quitar as dívidas de casa, o jovem Albert (Irvine) se dedica integralmente a domar e ensinar o cavalo. Quando a situação financeira aperta, ele é surpreendido pela decisão do pai de fazer algum dinheiro vendendo o animal para os oficiais do exército britânico. A Primeira Guerra Mundial está prestes a eclodir e Joey se perde no front, passando pela mão de soldados ingênuos, famílias de bem e homens sem escrúpulos.

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Divulgação / Em “Cavalo de Guerra”, Steven Spielberg passa mais de 2 horas se esforçando para fazer o espectador chorar; o maldito consegueEm “Cavalo de Guerra”, Steven Spielberg passa mais de 2 horas se esforçando para fazer o espectador chorar; o maldito consegue

Spielberg se deleita nos clássicos de cavalgada da Era de Ouro para moldar “Cavalo de Guerra”, mas pega pesado no melodrama a ponto de entregar cenas deveras embaraçosas, como aquela em que soldados inimigos se unem para salvar o animal-título preso em arames farpados – cena que remete àquele francês ruim, “Feliz Natal” (2005) – ou a cafonice do desfecho simulando “...E o Vento Levou” (1939) com a trilha sonora e a iluminação mais que manjadas. Aliás, as composições enjoativas de John Williams parecem ser onipresentes, pois embalam a aventura durante os intermináveis 146 minutos de filme, enquanto a estonteante fotografia de Janusz Kaminski prima excepcionalmente pela plasticidade das cenas, acompanhando com precisão as imagens panorâmicas que o diretor abusa para atribuir um tom épico especial à história.

E planos ultra abertos é o que mais se nota em “Cavalo de Guerra”, afinal trata-se de uma superprodução com cenários sofisticados e paisagens estarrecedoras, mas o caráter superlativo de Spielberg acaba obstruindo a fluidez da trama com a cisma pela estética, o tratamento piegas e a burocracia emocional a ponto de captar com closes cada lágrima que escorre dos olhos dos personagens. A grandiloquência do cineasta e a pretensão de bancar o John Ford do século XXI foram os principais motivos do filme ser um estrume. Mas é uma belíssima cagada! Produção de primeira, historinha de quinta.

Ademais, não tinha um ator melhor para protagonizar a fita? A cara de paisagem e o olhar oblíquo para o horizonte do jovem Jeremy Irvine se camuflam com a natureza em segundo plano, e nem mesmo os talentosos Peter Mullan e Emily Watson conseguiram se esquivar da caricatura. Atores promissores como Tom Hiddleston (“Thor”), Benedict Cumberbatch (o Sherlock Holmes da famosa série da BBC) e David Kross (“O Leitor”) também não passam de personagens escadas para evidenciar o sofrimento do cavalo em meio à batalha. Sendo assim, o único destaque do elenco recai sobre o avô afetuoso interpretado pelo veterano Niels Arestrup, em uma atuação entrega aos sentimentos.

Tendo lançado “As Aventuras de Tintim” e produzido apenas em 2011 mais de 5 filmes – entre eles, “Cowboys & Aliens” e “Super 8” –, Steven Spielberg fez muito dinheiro no ano passado, mas basicamente com produções abaixo do esperado em termos de qualidade. No entanto, nenhuma delas tão brega e ultrapassada como “Cavalo de Guerra”. Se no Oscar de 1994, o diretor teve um de seus anos mais férteis, com os excelentes “Jurassic Park” e “A Lista de Schindler” somando nada menos que 15 indicações e vencendo 10 estatuetas douradas, 2011 acabou sendo frustrante graças, principalmente, aos extremos do próprio cineasta. É como dizem: às vezes, menos é mais. (**)


CAVALO DE GUERRA (War Horse) USA, 2011
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Lee Hall e Richard Curtis
Elenco: Jeremy Irvine, Peter Mullan, Emily Watson, David Thewlis, Niels Arestrup, Celine Buckens, David Kross, Benedict Cumberbatch e Tom Hiddleston


06FEV

Tem como não amar?

Palavras-chave: jornalismo investigativo; misoginia; remake necessário; retrofuturismo; tatuagem de dragão


Fenômeno cada vez mais banalizado, a alta demanda de refilmagens em Hollywood é um atestado de preguiça e falta de criatividade de roteiristas e produtores, que preferem recorrer a materiais já finalizados ao invés de tentarem criar algo novo. É muito mais cômodo e prático, não é mesmo? Basta comprar os direitos autorais de determinada obra – e grana, eles têm –, dar um update na história, adaptá-la para os anos 2000, bolar um marketing chamativo e faturar milhões nas bilheterias. A receita é simples e os chefões dos estúdios geralmente saem no lucro: economizam tempo e eliminam todo o desgaste do processo criativo, afinal, a maioria dos remakes quando não mastigam o seu conteúdo, raramente adicionam algo de interessante em relação ao produto original.

São poucas as refilmagens realmente proveitosas, mas sejamos justos: às vezes, eles acertam. Sem falar que existem filmes que merecem uma recauchutagem, seja qual for o motivo.

Por exemplo, em 2009, o diretor sueco Niels Arden Oplev levou às telas o primeiro capítulo da série best-seller “Millennium”, cujo título no Brasil foi “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. Um bom filme policial, mas aquém da angústia e perversão que o famoso livro comunicava ao leitor. Quando foi anunciado que o diretor David Fincher (“Clube da Luta”, “A Rede Social”) faria uma nova versão para esta história, brotou a esperança de que o cineasta fizesse justiça com a irreverência da obra literária. Não que a adaptação sueca tenha sido recatada, mas em comparação, Fincher realça o tom de suspense e sublinha o despudor da história, mergulhando o espectador em um provocante thriller com pinceladas eróticas.

Baseado fielmente na obra já mencionada, o roteiro de Steve Zaillian, a princípio, apresenta os protagonistas em uma alternância de cenas pouco regulares: o jornalista Mikael Blomkvist (Craig), acusado de difamação e recém-afastado da revista em que trabalha e a jovem investigadora anônima Lisbeth Salander (Mara), uma hacker de aparência exótica que vive sob tutela do Estado. Desempregado, Blomkvist é acionado por um milionário que amarga por anos o sumiço misterioso da neta, na época com 16 anos. Determinado a descobrir o paradeiro da moça, ele aceita a proposta e, ao lado da enigmática e antissocial Lisbeth, partem em uma investigação particular para encontrarem o assassino de mulheres.


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Divulgação / Daniel Craig e Rooney Mara como os investigadores particulares do ótimo “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”Daniel Craig e Rooney Mara como os investigadores particulares do ótimo “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”

Inclinando-se a retratar tramas com serial killers, como fez nos brilhantes “Se7en” (1995) e “Zodíaco” (2007), David Fincher se sai admiravelmente bem sucedido ao carimbar a racionalidade que permeia seus trabalhos em um tenso e sufocante exercício de sadismo. A elegância de sua condução consiste justamente na atmosfera subversiva e sedutora que o diretor garante ao filme, desde a furiosa apresentação dos créditos iniciais – recomendo que vejam somente aqueles que já conferiram no cinema – até a resolução do caso. Afogado em malícias capazes de deixar o espectador explodindo de excitação, “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” prioriza a investigação central do enredo, mas encontra espaço para manifestar um obscuro apelo sexual próprio da natureza lasciva da obra – algo omisso no sueco e que Fincher incluí sem soar didático.

Impactante e estranhamente sensual, o ritmo e o visual impostos ao filme bebem da fonte cyberpunk tanto na concepção das cenas, como a carregada fotografia mergulhada em sombras assinada por Jeff Cronenweth, quanto pela trilha sonora penetrante de Trent Reznor (vocal do Nine Inch Nails) e Atticus Ross, que inexplicavelmente não foram indicados ao Oscar, enquanto a composição aborrecida de John Williams para “Cavalo de Guerra” foi lembrada. Só lamento. “Millennium” abocanhou 5 indicações pelos votantes da Academia, a maioria em categorias técnicas: Melhor Fotografia, Edição, Som e Edição de Som. A novidade fica com o reconhecimento do trabalho da jovem Rooney Mara, que mata a pau como Lisbeth. Aliás, não me acanho em dizer que boa parte do sucesso do filme deve ao desempenho da atriz.

Mara compõe a protagonista com uma agressividade adormecida, prestes a entrar em erupção. Interessante é a sua habilidade de fazer da personagem uma espécie fria, indiferente, porém extremamente cativante, resultado de uma performance expressiva e repleta de nuances. O restante do elenco faz bem o dever de casa, mas Mara coloca todos no bolso até pela força de seu papel.

Muito bacana é que em um filme intitulado “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, Fincher atribui voz e exibe imenso respeito à figura feminina. Essa inversão de papeis está não apenas impressa em Lisbeth, garota com autoridade e que não finaliza uma transa até atingir o orgasmo, mas também na jornalista vivida pela ótima Robin Wright. São mulheres ativas e bem resolvidas, um tipo raro no cinema machista de hoje. Se fosse exclusivamente pela extasiante brincadeira de detetive, o filme já valeria muito a pena, mas a composição do todo e as informações adicionais fazem de “Millennium” um filme bizarramente sexy e atordoante. (****)


MILLENNIUM – OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES (The Girl with the Dragon Tattoo) EUA/Suécia, 2011
Direção: David Fincher
Roteiro: Steve Zaillian
Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Stellan Skarsgård, Yorick van Wageningen, Joely Richardon, Robin Wright e Christopher Plummer


29JAN

Sem pausa para respirar

Palavras-chave: arritmia cardíaca; Gatorade; magos do entretenimento; nostalgia; “papagaio louro!”


Tintim é um personagem clássico da literatura infanto-juvenil que abocanhou fãs em todo o mundo. Produzido entre as décadas de 1930 até a morte de seu criador, o belga Hérge, em 1983, a popularidade dos quadrinhos narrando as aventuras do jovem repórter são equivalentes, em uma comparação pouco lacônica, aos exemplares da sensacional coleção Vaga Lume. Algumas de suas histórias chegaram a ser publicadas no Brasil, mas foi a série exibida pela TV Cultura no início dos anos 1990 que efetivamente apresentou o jornalista com faro de detetive ao público brasileiro. Os contos repletos de espionagem, fantasia, ficção científica e humor encantaram uma geração. Com o lançamento de “As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne”, a expectativa e a empolgação infantis são inevitáveis, mas desde já recomendo àqueles que se tornaram adultos sedentários – cof cof – garantirem uma garrafinha de água no cinema para evitar a ofegação.

Isso porque, nesse meio tempo, Tintim aprimorou os golpes de kung fu, matriculou-se em aulas de Le Parkur, deve ter corrido maratonas e aplica com frequência adrenalina direto na veia – talvez o filme não quisesse mostrar para não pegar mal. Somente isso para justificar a energia do personagem-título, que somada à hiperatividade com que a história é contada, transforma o filme em um videogame repleto de cenas de ação. Uma pena, no entanto, que Steven Spielberg não compartilhe o joystick com o espectador, pois toda essa montanha russa, por mais divertida que seja – e é –, só dura enquanto o “The End” não surge na tela.

Roteirizado pelo marinheiro de primeira viagem Steven Moffat (da série “Sherlock”) junto aos subestimados Edgar Wright (“Scott Pilgrim Contra o Mundo”) e Joe Cornish (“Ataque ao Prédio”), “As Aventuras de Tintim” apresenta uma introdução muito promissora. Sem perder tempo, introduz o enigma do Licorne, um navio de guerra misterioso afundado em segredos e que, em meados do século XVII, carregava uma carga secreta. Tintim adquire o objeto para estudá-lo, porém a miniatura desaparece misteriosamente de sua casa. Ao lado do cão Milu e do Capitão Haddock, o herdeiro do Licorne, vai tentar impedir que o tesouro escondido vá parar em mãos erradas. Nessa jornada, desbravam mares a remo, pilotam um precário avião bimotor e cruzam a pé o Deserto do Saara até chegarem ao destino final: a fictícia cidade de Bagghar, em Marrocos. Haja Gatorade!


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Divulgação / Divertido e emocionante como um parque de diversões, Speilberg engata a quinta sem piedade no comando de “As Aventuras de Tintim”Divertido e emocionante como um parque de diversões, Speilberg engata a quinta sem piedade no comando de “As Aventuras de Tintim”

Tintim e sua trupe fazem em poucos dias o que o personagem do Julio Verne levou quase 80 para conquistar. A overdose de cenas de ação grandiloquentes abre caminho para o espectador experimentar uma nostálgica viagem à infância, com direito àquelas tramas absurdas em que o topete de Tintim saía intacto de todas. Da mesma forma, Spielberg não teve medo de investir em uma história exagerada e inverossímil na incursão do personagem no cinema, tendo certamente se divertido durante as filmagens. Mas fica por aí. “As Aventuras de Tintim” cativa parcialmente o espectador pela extravagância das cenas estilo “Piratas do Caribe” – e não “Indiana Jones”, como muitos tem comparado –, mas peca por sufocar boa parte do enredo e o tom de suspense com os excessos.

Por exemplo, as inúmeras fusões de imagem no momento em que Haddock, chapado de whisky, remonta a trajetória do Licorne. Até em cenas-chave como esta, Spielberg não dá descanso e engata a quinta marcha sem piedade. Outra que vem à cabeça é a fuga de Bagghar, um plano-sequência epilético de deixar o mais gordinho pedindo água. Essa cena é genial, mas o diretor parece não ter considerado o restante da produção ao incluí-la, o que muitos desatentos, considerando a banalização da ação em “As Aventuras de Tintim”, podem ter achado apenas mais um trecho como os outros.

Entretanto, o que mais decepciona no filme é o roteiro insustentável, como o desperdício dos policiais Thompson e o gatuno batedor de carteira, personagens que entram e saem sem fazer diferença na história, assim como algumas investidas de humor, que mais obstruem o ritmo do que colaboram com ele. Isso sem falar na frustração dos fãs com a dublagem que não contou com muitos dos dubladores originais da série de TV.

Spielberg e o produtor Peter Jackson (trilogia “O Senhor dos Anéis”) aprimoraram o motion capture – digitalização de imagens reais – e utilizaram a técnica como molde para o filme, capacitado pelo 3D, que é relativamente bem explorado. Divertido e emocionante como um parque de diversões, “As Aventuras de Tintim” remete ao belo gráfico das obras de Hergé e vale o ingresso só pela abertura dos créditos; triste é constatar que o personagem corre, corre, corre e não chega a lugar algum, além de uma boa diversão. (***)


AS AVENTURAS DE TINTIM – O SEGREDO DO LICORNE (The Adventures of Tintin – Secret of the Unicorn) EUA / Nova Zelândia, 2011
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright e Joe Cornish
Elenco: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Nick Frost e Simon Pegg


22JAN

Podcast #1 – Prevendo os indicados ao Oscar 2012


A lista dos indicados as 24 categorias do Oscar 2012 será divulgada na manhã desta terça-feira (24) e aproveitando a ocasião, o blog Pós-Première estreia a seção Podcast, espaço destinado para discutir e botecar cinema.

A pauta desse primeiro bate-papo cinéfilo foi justamente baseada nos possíveis nomeados à maior premiação do cinema. Cibele Chacon, crítica instruída, cinéfila irreversível e editora do blog Sempre às Moscas – leitura obrigatória para quem curte cinema – topou dividir suas previsões em uma participação, que, espero, seja a primeira de muitas. Obrigado mais uma vez, Chacon!


Trilhas de fundo:
* Stephane Wrembel, de “Meia-noite em Paris”
* Alberto Iglesias, de “O Espião que Sabia Demais”
* Michael Giacchino, de “Super 8”
* Howard Shore, de “A Invenção de Hugo Cabret”
* Thomas Newman, de “Histórias Cruzadas”


Leitores/ouvintes, quais filmes e atores vocês acham que terão maiores chances nessa terça-feira?


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Divulgação / Pôsteres de filmes favoritos ao Oscar 2012; “O Artista” e “A Invenção de Hugo Cabret” na disputa pelo maior número de indicaçõesPôsteres de filmes favoritos ao Oscar 2012; “O Artista” e “A Invenção de Hugo Cabret” na disputa pelo maior número de indicações

18JAN

‘Agora sou herói de ação, meu caro Watson’


Palavras-chave: bom entretenimento; detetive versão pop; essência perdida; flashbacks a rodo; método de camuflagem


Ao lado do Conde Drácula e Robin Hood, o detetive Sherlock Holmes certamente é uma das figuras que, desde os primórdios, mais bateu cartão em projetos para o cinema e para a televisão. Atores consagrados como Christopher Plummer, Michael Caine e George C. Scott já deram vida ao astuto investigador, mas as honras vão mesmo para o relativamente esquecido do público Basil Rathbone por ter imortalizado o personagem no cinema ao encarnar Holmes em 14 produções entre 1939 e 1946. A premissa geral das histórias se baseia em casos enigmáticos desvendados pelo detetive e seu inseparável parceiro, Dr. Watson, no tumultuado cenário de Londres no final do século XIX.

Desde aventuras infantis até filmes com pegada mais obscura – “O Enigma da Pirâmide” (1985) e o remake de “O Cão de Baskervilles” (1959), respectivamente –, Sherlock Holmes já foi retratado no cinema com diferentes personalidades, porém jamais reprimido de suas rápidas deduções lógicas e seu aguçado sentido de percepção. Infelizmente essas importantes distinções são pouco exploradas nas ações do personagem-título em “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras”. Nessa nova empreitada, em vez de mostrar o detetive dialogando com sua intuição e sagacidade para solucionar os problemas, o roteiro prefere o caminho mais fácil: suprimir todo o raciocínio mais complexo e apresentá-lo materializado em explosões, porradas, perseguições, risos etc. Entregar o material mastigado é decepcionante, mas essa opção não necessariamente priva essa inspirada sequência de ser um ótimo passatempo.

Escrito pelo casal Kieran e Michele Mulroney, o filme segue os passos de Holmes (Downey Jr.) e Watson (Law) para acabar com o quebra-cabeça do maligno professor James Moriarty (Harris). Acompanhada da exótica cigana Simza (Rapace), a dupla vai tentar impedir que outras vítimas sejam assassinadas pelas mãos do mais brilhante mandante do crime londrino.

Próximo de um “Máquina Mortífera” da Era Vitoriana, “Sherlock Holmes 2” prende a atenção pela tonelada de cenas de ação e entretém com as investidas de humor – um pouco exageradas em alguns momentos, mas divertidas em sua totalidade. O triunfo está mesmo na dinâmica dos protagonistas; não digo tanto pelo Watson interpretado por Jude Law, que ganha mais espaço nessa continuação e só serve como escada para as gags do irreverente Holmes, mas para o que o filme se propõe, o detetive definitivamente encontra em Robert Downey Jr. o seu intérprete ideal. A atriz sueca Noomi Rapace pouco tem a oferecer de orgânico para a trama, ocupando apenas o posto da sempre presente figura feminina, enquanto o Moriarty do ótimo Jared Harris é totalmente subaproveitado pelo roteiro, o que é lamentável considerando o a oportunidade desperdiçada de cenas em que vilão e mocinho pudessem duelar intelectualmente.


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Divulgação / “Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras” mascara a inteligência de seu protagonista e se transforma em um “Máquina Mortífera” da Era Vitoriana“Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras” mascara a inteligência de seu protagonista e se transforma em um “Máquina Mortífera” da Era Vitoriana

Ao privilegiar a ação, inevitavelmente, o projeto sofre com a inconsistência do roteiro, principalmente vindo de Sherlock Holmes, personagem mundialmente conhecido pela genialidade, e não pelos dotes e habilidades físicas. Em suma, se há cenas frenéticas de cortes na velocidade da luz transbordando no script, faltou mistério, investigação e ousadia para encorpar a lauda, porque se os roteiristas acharam que sugerir um suposto envolvimento homoerótico entre os heróis fosse “fazer algo diferente e inusitado”, boa sorte na próxima vez. Pois, vamos lá: Holmes invade a lua-de-mel de seu amigo, traveste-se de mulher e há uma cena em que se refere à parceria com Watson como “relacionamento”, expressão que é rapidamente corrigida pelo fiel escudeiro. Estranho, mas divago.

Se não bastasse a falta de encorajamento por parte dos escritores, o diretor Guy Ritchie sufoca cenas-chaves com recursos narrativos manjados e pouco funcionais, como a desnecessária câmera lenta na floresta, a mania de mostrar ao espectador o interior de uma arma de fogo sempre que alguém aperta o gatilho ou o excesso de flashbacks explicativos, que, mais uma vez, anula integralmente a esperteza do roteiro. Abusando da técnica extravagante e relativamente repetitiva, Ritchie acaba criando armadilhas contra o próprio filme.

Contudo, é uma boa fita de ação cômica. Salvo pela informalidade personificada de Downey Jr. e pela caprichada contribuição dos cenários do longa, apesar das mancadas, “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras” consegue ser superior ao original de 2009, que também repete a linguagem pop do filme e o caráter despojado de seu personagem, mas falha por não ser tão divertido como este exemplar. (***)


SHERLOCK HOLMES: O JOGO DE SOMBRAS (Sherlock Holmes: A Game of Shadows) EUA, 2011
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Kieran Mulroney e Michele Mulroney
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Noomi Rapace, Jared Harris, Stephen Fry, Kelly Reilly e Rachel McAdams


11JAN

Quarteto fantástico

Palavras-chave: adrenalina; Burj Khalifa; Tom Cruise cinquentão; trabalho em equipe; vilão sem sal


Sobrevivente em meio a altos e baixos, “Missão: Impossível” foi projetado em 1996 para promover a figura de seu astro, Tom Cruise, como uma variante de James Bond das Américas. Nos três filmes anteriores da série, o agente secreto Ethan Hunt é acionado pela companhia de investigação governamental a qual presta serviços, a IMF, para confrontar terroristas, assassinos, traficantes de armas e qualquer tipo de ralé que habita o submundo especializado do crime. Hunt assume as incumbências sempre apoiado por um time de profissionais competentes, porém a honra de herói ele recebe sozinho, enquanto o crucial grupo de ajudantes geralmente é relegado pelos roteiros. Não há nada de tão errado nisso, afinal toda história tem de escolher seu protagonista, mas no comando desse quarto capítulo, o diretor Brad Bird entrega o melhor exemplar da franquia provando que a união faz a força.

Um trio de escudeiros é escalado para auxiliar o agente em suas missões, o que, por sua vez, distingue esse “Missão: Impossível IV – Protocolo Fantasma” dos demais devido ao espaço cedido na trama aos novos comparsas, além da indispensável colaboração de cada membro na resolução dos casos. Já seria admirável somente essa decisão em dividir o holofote com o restante do elenco, mas devo reconhecer que a equipe montada funciona incrivelmente bem, pois não servem apenas como alívio cômico, nem para abastecer clichês e estereótipos, pois cada um desempenha papel fundamental e o tratamento dado a cada integrante foge da unidimensionalidade. Esta aí um filme que transpira adrenalina até a última gota, mas que claramente foi concebido por pessoas que se importam com seus personagens.

Esse lado emocional casado com cenas de ação vibrantes já era de se esperar de Brad Bird, que utilizou a mesma receita em “Os Incríveis” (2004), um dos melhores exemplares lançados pela Pixar. Experiente diretor de animações, essa foi a primeira investida de Bird em um filme live-action, isto é, com cenários e atores de carne e osso. Sua condução prova que independente do formato do filme – animação, documentário, ficção –, o bom cineasta é aquele que aplica sua técnica e estuda as possibilidades para satisfazer o espectador, como as cenas da tempestade de areia nas avenidas de Dubai ou Cruise, sem ajuda de dublês, escalando o maior arranha-céu do mundo, o Burj Khalifa, para se infiltrar no local e arrancar informações sobre o vilão da história; ambas entram facilmente no hall das melhores cenas da série.

O humor não é descartado, e muito se deve ao relacionamento dos personagens de Jeremy Renner e Simon Pegg, este último, um dos melhores comediantes inexplorados de Hollywood. Para o deleite do público masculino, a segurança e a beleza hipnotizante da atriz Paula Patton, que só não ganha mais crédito por, infelizmente, não protagonizar uma luta no gel com Léa Seydoux, a companheira loira do elenco. Perdoem pelo comentário, mas quem assistiu, com certeza, vai concordar comigo.


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Divulgação / Tom Cruise escala o maior edifício do mundo e foge de uma tempestade de areia no quarto e melhor capítulo da franquia “Missão: Impossível”Tom Cruise escala o maior edifício do mundo e foge de uma tempestade de areia no quarto e melhor capítulo da franquia “Missão: Impossível”

Escrito por Josh Appelbaum e André Nemec, roteiristas provenientes da TV, “Missão: Impossível IV” abre com uma emboscada na Rússia que faz dos então agentes da IMF os principais suspeitos da destruição de um patrimônio histórico do país, um atentado interpretado pelos russos como a prévia não-oficial de uma batalha. Essa tragédia forçou o presidente dos Estados Unidos a assinar o Protocolo Fantasma, um documento que aborta as atividades da unidade de investigação do governo, deixando cada um dos agentes agindo por conta própria. Sem apoio e com as ferramentas limitadas, o quarteto vai em busca de um terrorista estrangeiro que arquiteta planos para iniciar uma guerra nuclear.

Por falar no diabo, o papel ficou a cargo do sueco Michael Nyqvist. Se o filme se sobressai por dar enfoque na dinâmica da equipe e nas tarefas desempenhadas com orçamento baixo, peca por criar o vilão mais desinteressante da franquia, quase um figurante tamanha sua inexpressividade na trama. Pouco explorado e aparecendo apenas para reforçar o seu caráter duvidoso, a mesma preguiça do roteiro é injetada em seus parceiros do crime, como aqueles interpretados por Seydoux e pelo indiano Anil Kapoor, o que decepciona muito por reduzir personagens importantes em caricaturas.

Não podendo faltar a reprodução da famosa cena no original em que Hunt é segurado por fios e fica paralelo ao chão com os braços abertos, nem o tema clássico composto por Lalo Schifrin – trabalhado de forma orgânica e funcional pelo compositor Michael Giacchino – “Missão: Impossível IV – Protocolo Fantasma” é um filme de ação envolvente, com ritmo acelerado e convenientemente tocante nos momentos que devem ser. Impossível é não gostar. (****)


MISSÃO: IMPOSSÍVEL IV – PROTOCOLO FANTASMA (Mission: Impossible IV – Ghost Protocol) USA, 2011
Direção: Brad Bird
Roteiro: Josh Appelbaum e André Nemec
Elenco: Tom Cruise, Jeremy Renner, Paula Patton, Simon Pegg, Michael Nyqvist, Anil Kapoor, Léa Seydoux e Josh Halloway


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