Gazeta Maringá

Quinta-feira, 17 de maio de 2012

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Gilson Aguiar

Diário de Bordo

Um olhar político do dia a dia

  • Quem faz o blog
15MAI

Empate vitorioso

Admiro a astúcia, fico impressionado com quem sabe jogar “o jogo da política”. Semana passada, o presidente da Câmara de Vereadores de Maringá, Mário Hossokawa foi habilidoso e transformou um empate em vitória. A jogada de mestre foi durante a votação da redução dos salários dos vereadores, secretários, vice-prefeito e prefeito. Descontente com a proposta da Comissão de Finanças e Orçamento da Câmara de Vereadores, Hossokawa não usou seu voto minerva para desempatar o “placar” de 7 a 7. Agora, tudo vai ter que ser renegociado.

Diante da derrota, o presidente da Comissão de Finanças e Orçamento, Doutor Sabóia, ficou indignado. Em entrevista a CBN, ele afirmou que tinha contato os votos, eram nove, mas na hora “H” dois lhe traíram. Contudo, mais que traição, o que ocorreu na sessão foi falta de experiência, a mesquinhez de alguns fala mais alto que a palavra empenhada. Sabóia acreditou no compromisso maior de quem tem interesses menores.

Agora, o destino dos supersalários deve ser a redução, mas com novos valores. Quem deve reger a batuta da discussão é o presidente do Legislativo Municipal. Ele quer uma redução do salário dos vereadores de R$ 12 mil para R$ 9,5 mil. E pelo que tudo indica vai conseguir. Uma jogada de mestre para quem durante anos viveu a sombra do poder. Agora, Hossokawa colocou para funcionar sua astúcia. Política também se faz com quem soube aprender com a derrota e fazer dos erros lições para o acerto, nem sempre para o que certo.

01MAI

Ato falho: a sinceridade que escapa pela boca.

Governador Beto Richa pediu desculpas aos PMs por ter declarado que policiais com curso superior costumam ser insubordinados. Quem dera um diploma salvasse a “tropa”. Infelizmente não.

Sempre é bom lembrar que os estudantes universitários estão entre os índices elevados de ações ilícitas. Consumo de bebidas alcoólicas, além do uso de entorpecentes, acidentes de trânsito, etc. Logo, ter um curso superior não nos livra do mau caráter. Quem sabe, assim se aprende que a escola não resolve todos os problemas.

Mas voltando a questão dos policiais militares, acredito que eles necessitem de qualificação. Não é preciso ser um gênio para saber que a maioria dos policiais que ingressam em uma universidade já demonstra um interesse imenso em melhorar. O lamentável é que universitários acabam abandonando a farda. Menos pelo desinteresse pela profissão, mais pelas condições de trabalho.

O resultado amargo do que o governo paranaense expressou, é o desejo de controlar os policiais, mantê-los subordinados e obedientes. Já que a falta de segurança é um dos “calcanhares de Aquiles” de quase todas as administrações públicas do país.

Beto Richa disse que foi “ato falho”, mas são estes atos que expressão os desejos contidos. A sinceridade, muitas vezes, salta a boca e expressa o que todos sabem. Contudo, nem sempre pode ser dito.

26ABR

Sangue pulsa na rede

Nossa vida é on-line, ontem a prova foi tirada e a falta de água e luz já pode ser comparada a falta de celular e internet. Ontem à tarde a vida, para muitos, ficou um caos. Retrocedemos séculos aparentes em uma tecnologia que expressa apenas décadas de mudança, há 30 anos não era assim.

O rompimento de duas linhas de transmissão da internet deixou a maior parte dos usuários de banda larga e telefonia móvel sem serviço. O problema iniciou no começo da tarde e se estendeu, em diversas cidades do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do sul, até o final dela.

Nossa vida se relaciona cada vez mais com a virtualidade. Pior, depende dela.
Ontem teve quem deixou de trabalhar porque não tinha a ferramenta vital para desenvolver sua atividade e descobriu que no aparente acessório, no fundo, está o mais importante meio de trabalho.

Outra lição complicada e preocupante, não tem mais como reproduzir esta sociedade e mantê-la em funcionamento sem determinados instrumentos que dão sentido aos demais. Confirmamos o porquê o Google ou o Facebook podem valer mais que as montadoras GM e Ford.

A fortuna de Bill Gates foi justificada ontem, ela está relacionada ao sistema que nos alimenta. Fiquei repensando os discursos românticos sobre os agricultores que produzem o alimento e quanto devem ser tratados com respeito. Ainda considero que sim, mas sem a rede mundial de computadores não sei se a agricultura moderna sobreviveria, acredito que não. A soja e o milho também tem seu lado virtual.

Acredito que muitos pensem, hoje, que ontem foi um dia para esquecer. Eu prefiro nunca deixar de lembrá-lo. Ele nos deu a dimensão do que somos e o quanto dependemos do que nem sempre notamos.

16ABR

O apadrinhamento do poder

O custo dos homens públicos no Brasil é elevado. Segundo dados da ONG Transparência Brasil, de 2007, cada parlamentar federal custa anualmente para o país mais de R$ 10 milhões. Em um ranking de 11 nações, somos a segunda em gastos públicos para manter os representantes públicos no Congresso Nacional. Mas isso faz jus a nossa história política.

A nação foi construída pela herança monárquica portuguesa, um estado caracterizado por um peso tributário imenso e uma máquina pública inchada. O poder público é o maior consumidor em muitos setores da economia e o principal empregador do país. Todos querem ter o estado como cliente ou se transformar em mais um membro do seu corpo obeso de funcionários.

O atual governo, levando em consideração que a presidente Dilma Rousseff representa a continuidade do governo Lula, é um exemplo do que é o inchaço público. Aumento de impostos, de funcionários públicos associado a elevação gradativo da carga tributária são marcas registradas da atual administração federal. Não se pode esquecer que a CPMF só não foi ressuscitada por força da oposição no Congresso. Momento raro diante de um governo que tem no parlamento um fantoche.

Esta mesma máquina encantadora de “distribuir dinheiro” com os recursos públicos, o estado, quando se está em um regime democrático, gera o desejo de uma parte da sociedade em ingressar na vida pública e participar dos benefícios da “festa estatal”. Ser “nobre” na democracia brasileira é ter através do voto o acesso à casta que se instala e busca perpetuar-se no poder.

Logo, realmente os nossos políticos são caros. Eles representam o desejo de todos em transformar os recursos públicos em caminho para superar os interesses privados, mesquinhos, pessoas, que atraem ao poder. Que a vaidade e o desejo de se beneficiar do poder seja um sentimento comum a quem tem vocação política é uma realidade e não pode ser censurado, mas ter apenas isso a oferecer é o reflexo do que o estado representa pela sociedade.

07ABR

Calcanhar de Aquiles

Volto a dizer, política é vocação. Não basta o poder econômico para se lançar na vida pública. Por mais que os que se lança no jogo de forças que sustenta a governança tem interesses, alguns nobres, pela coletividade, outros pequenos, como seus próprios, o poder não é para qualquer um.

Estamos prestes a ver uma campanha municipal se desdobrar. Um número considerável de pré-candidatos demonstra o desejo de chegar ao poder executivo municipal. Mas nem toda a vontade tem sustentação. Na democracia querer não é poder, na política muito menos.

Por isso, a continuidade é um desafio, delegar o poder a outro, dar-lhe a capacidade de expressar a permanência no poder, é uma arte. Exige de quem sai do poder e daquele que se coloca como herdeiro. A passagem é um ritual delicado.

Este será o maior desafio do atual prefeito de Maringá, Silvio Barros II, e seu vice-prefeito, Carlos Roberto Pupin, e candidato declarado da atual gestão, na busca de transferir o legado administrativo.

Dois elementos conspiram contra esta transferência, um vice-prefeito sem a vocação de herdeiro e que não consegue, pelo menos a princípio, captar os números favoráveis da administração atual. O outro fator é a personificação de Barros sobre sua administração. Um eficiente modelo de identificação da gestão com o gestor, mas que agora parece custar caro na busca da permanência do grupo político no poder.

Se Roberto Pupin não tem a vocação para herdeiro, Silvio não parece ter para transferir a herança. Este será o grande desafio para a permanência do poder. Um “calcanhar de Aquiles” que pode ser explorado pelos adversários políticos.

Gilson Aguiar - Professor por escolha, jornalista e comentarista por paixão e ousadia. Âncora e comentarista da CBN, professor de Teoria das Ciências Sociais no Cesumar.

29MAR

Herança irônica de Dilma

Ecoam dos porões da ditadura as marcas de um período “obscuro” da história brasileira. Os cárceres decretaram a morte de alguns, as dores e mutilações de outros. Das marcas que o regime fundado na “salvação nacional” deixou, algumas não cicatrizaram. Quem vai pagar por isso?

Agora, no dia 31 de março e 1 de abril, o Regime Militar “comemora” seu início, mas seu fim que é amargo. Todo o começo é doce, mas o prolongado período de exceção deixou um gosto de fel. O surgimento das ditaduras na América Latina foi uma onda impulsionada pela geopolítica da Guerra Fria (1945 a 1989). A polarização entre o Pacto de Varsóvia e a OTAN não existe mais.

Em alguns dos países que conviveram com o regime militar, as investigações foram profundas e trouxeram os porões da ditadura ao conhecimento público. Mas em outros, os regimes autoritários conseguiram selar os “baús da memória”.

No Brasil, o regime militar pode ser considerado brando diante das atrocidades chilenas e argentinas. Os ditadores portenhos, que permaneceram no poder entre 1976 a 1983, eliminaram em torno de 30 mil civis. Os militares chilenos, sobre a batuta de Pinochet, oficialmente assumem 2.279 mortes, mas a quem aponte 32 mil. Os executados pelo regime dos militares brasileiros estariam entre 293 e 500. Os fardados de “verde oliva” e cinco estrelas, por esta ótica, foram brandos.

Mas algumas destas mortes tocam fundo na memória. Uma das que se tornaram emblemáticas foi a execução de Vladimir Herzog nas dependências do DOI-CODI, em 1975. Fato que a Comissão Internacional dos Direitos Humanos (CIDH) quer explicações do governo brasileiro.

Caso isto venha a ocorrer, será uma das torturadas pela ditadura, na condição de chefe do executivo federal, a presidente Dilma Rousseff, a voz que vai fazer ecoar a desculpa e indenização aos familiares de Herzog. Ela será a representante do peso que o regime militar tem na memória dos brasileiros e que lhe deixou de legado. Ironia, ou não?

Gilson Aguiar - Professor por escolha, jornalista e comentarista por paixão e ousadia. Âncora e comentarista da CBN, professor de Teoria das Ciências Sociais no Cesumar.

08MAR

Rico por um dia

Os efeitos que faz de um milhão uma fortuna é o mesmo que a compra de eletrodomésticos faz em que pensa estar emergindo para o mundo da satisfação permanente. O dinheiro tem seu valor, mas a vida pode determinar a ele um poder maior do que os números.

Nós ainda estamos distantes de sabermos lidar com o recurso financeiro. Estamos distantes de uma capacidade de aplicação adequada da renda e a garantia de que teremos recursos para os próximos anos. Por sinal, nem planos para as próximas décadas temos, mas vamos viver quase 100 anos. Resta saber como.

O governo Dilma Rousseff já aposta na campanha de que em 2014 teremos 30 milhões de brasileiros no topo da pirâmide econômica. Acreditamos que este número vai aumentar e que a sociedade irá se transferir da base ao topo. Nossa pirâmide invertida irá se equilibrar de forma eficiência em um restolho de miseráveis, talvez mais por opção do que condição. Uma utopia que não se realizará.

As coisas da economia não são simples. No emaranhado mundial de rede de produção, não se calcula riqueza pela capacidade de consumo, muito menos pelo que estamos assistindo hoje. Só se pode levar a sério o que tende a permanecer como eficiente. Muitos dos que tem acesso ao crédito e tem renda hoje, podem ser dispensados nos próximos anos, ou ficarem obsoletos. Nada garante a permanência da renda se não a capacidade de lidar com o dinheiro ou ter competência para manter seu ganho, seja um empresário ou trabalhador.

Mas, para quem gosta de viver o momento, é bom se apegar a filosofia do cartão de crédito: “porque a vida é agora”. Infeliz filosofia de quem vai viver muito, mas não sabe o que fazer com o futuro.

Gilson Aguiar - Professor por escolha, jornalista e comentarista por paixão e ousadia. Âncora e comentarista da CBN, professor de Teoria das Ciências Sociais no Cesumar.

28FEV

Entre a política e o consumo

Partidos são marcas, isto é uma verdade. Mas como uma grife é coisa da política contemporânea. A sigla partidária há muito deixou de ser uma representação ideológica para se transformar em instrumento de sedução de consumo.

Agora, o PT vai fazer pesquisa nos municípios paranaenses com mais de 100 mil habitantes para definir suas coligações. O interesse da pesquisa é saber com qual produto a “marca” petista se simpatiza.

As empresas de marketing têm nas pesquisas ao consumidor um importante instrumento para definir a política de atuação no mercado. Nada disso é mera coincidência. Crescer implica em saber qual a tendência do eleitor.

Seria leviano dizer que esta é uma prática exclusivamente petista. Tem se tornado uma ação de todos os partidos e personagens políticos.

Fazer do homem público um sabão em pó ou uma batata frita cai bem no gosto de quem confunde o título de eleitor com o cartão de crédito.

A perda ideológica dos debates políticos tende a crescer conforme a lógica de mercado avança sobre a pauta partidária. O que não deve ser responsabilizado pela estratégia dos partidos, ou manipulação do eleitor. Calculo que é exatamente em quem vota que está o problema da superficialidade do ideário político. O cidadão é mais consumidor, ele fundiu em uma contradição que gerou unidade sem se resolver, ser consumidor é o seu direito mais precioso.

Por isso, o voto vai para o melhor produto.

Gilson Aguiar - Professor por escolha, jornalista e comentarista por paixão e ousadia. Âncora e comentarista da CBN, professor de Teoria das Ciências Sociais no Cesumar.

20FEV

Polícia e segurança: Lógica simples de um problema complexo

Estamos assistindo aos movimentos dos policiais por melhores salários. Eles ocorrem por todo o país. Alguns caminham para movimentos grevistas, outros não passam de manifestação sem confronto direto, mas a insatisfação entre aqueles que executam a segurança pública vem de longa data. A falência do aparato de segurança já se manifesta a mais de um século.

Criadas durante a permanência de Dom João VI no Brasil, os aparatos de segurança pública já desenhavam sua função antes disso. O estado, na história brasileira, utilizou costumeiramente a força armada pública para bater e depois perguntar. A repressão do poder público é a prática constante que atinge muitos inocentes. Por isso, o descrédito.

Mas é preciso tomar o cuidado de não colocar os reais bandidos entre as vítimas dos policiais. Quando se fala da violência promovida contra os civis inocentes, na massa vitimada há os que se fazem de vítima. O país tem muitos bandidos. Em sua maioria, nascidos do ambiente propício para o crime. O principal incentivo é a impunidade.

Punir não é só prender, é educar com limites para que se saiba o preço que se paga por um delito cometido. As delegacias estão cheias de presos esquecidos pelo descaso dos processos que correm na “justiça morosa”. O ambiente podre dos cárceres aumenta as chances de produzirmos criminosos em série. O “ladrão de galinhas” reside no ambiente com o especialista do crime organizado. A equação do caos prisional é uma bomba.

A questão salarial é apenas um dos problemas do aparato de segurança. Há muito mais. Os policiais são mal formados. Aprendem a maior parte da realidade da segurança pública em atividade, principalmente os vícios. Dentro da polícia há política na carreira profissional e pacto com o crime organizado. Delegados são nomeados e transferidos pelo governador. Eles querem mostrar serviço, incomodar menos superiores e fazer números e, assim, ascender na carreira profissional.

Em relação a corrupção e o vínculo com o crime organizado, é uma forma de melhorar o ganho para os corruptos. Há quem, de farda, é formado no mesmo molde que os bandidos. Por isso, falam a mesma “língua”.

Se quisermos evitar problemas com o aparato de segurança, temos que entender a questão com a complexidade que merece. Discutir segurança pública pelos pedaços nunca irá nos dar a verdadeira dimensão do problema. Salário dos policiais é algo a melhorar, mas ainda estamos longe da paz social com o aparato de segurança que temos. Ele está falido e precisa mudar.

Gilson Aguiar - Professor por escolha, jornalista e comentarista por paixão e ousadia. Âncora e comentarista da CBN, professor de Teoria das Ciências Sociais no Cesumar.

17FEV

Dormir com um olho aberto evita pesadelo

Eu nunca fui muito crente na mudança do que é constante. Apenas acredito que é possível fazer diferente a mesma coisa. Contudo, acredito na boa vontade. Esta é a minha definição do comportamento que tem tomado os parlamentares municipais de Maringá. Boas e más práticas em um convívio com personalidades diferentes.

Os vereadores iniciaram o ano elegendo novos membros para as comissões permanentes e dispostos a rediscutir o aumento dos subsídios que foram definidos no ano passado. Falam, alguns, em reduzir os valores. Será?

Sei que existe o ditado: “quando a esmola é demais o santo desconfia”. Pelas práticas constantes permaneço com a desconfiança, mas cheio de esperança de me enganar. Quero estar errado. Mas sei que muitos erram para poder concertar. Espero que alguns parlamentares maringaenses não confirmem minha cisma.

Esta semana, a Comissão de Finanças e Orçamento decidiu rediscutir o aumento dos subisídios do prefeito, vice, secretários e vereadores. Convocou uma reunião com os demais membros da Câmara Municipal para debater a questão. No encontro, foi decidido convocar os representantes da sociedade civil para a discussão e entendimento.

Tudo caminha para o diálogo. Mas não podemos esquecer que o aumento dos salários dos legisladores pode retornar a qualquer momento. E já tivemos exemplo de ações tomadas na “calada da noite”. Já fomos traídos.

Por isso, podemos discutir a relação e tentar novamente, mas a desconfiança é uma arma necessária, dependendo de com quem está se lidando. Em certos avanços, há que ter sempre um “pé” atrás. Ainda mais, quando estamos convivendo com quem tem a infidelidade como hábito.

Gilson Aguiar - Professor por escolha, jornalista e comentarista por paixão e ousadia. Âncora e comentarista da CBN, professor de Teoria das Ciências Sociais no Cesumar.

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